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Full text of "Laudelinas XII"

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VOL.I NºI2 2023 


MIRADA 


MIRADA 


xD 


ssa EXPEDIENTE 


MIRADA 


LAUDELINAS 


Volume I. Número 12.2023 
ISSN 2675-6803 

Mirada 

Recife - Pernambuco 


EDITORA CHEFE 


Taciana Oliveira 


DESIGNER 


Taciana Oliveira 


CAPA 


Taciana Oliveira 
(intervenção digital na foto de Edgar Garrido/Reuters) 


FOTOS 


Naufrágio na Itália- Reprodução 
Glória Maria - Reprodução 


AGRADECIMENTOS 


João Gomes da Silva - Revista Vida Secreta 


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ÍNDICE 


O5 Indíce 50 De Atlântica Cor | Katiuscia Carvalho | 
- Lisa Alves 
07 Aprensentação 
09 'Stamos em pleno Mar 54 Talvez o milagre esteja mesmo aí 
Eee TiAs so - Maria João Cantinho 


un Águas - Deborah Dornellas 61 Das vulvas que nascem as poetas 


- Renata Pimentel 


15 Estrangeira desde que nasci 


- Thays Albuquerque 64 Bomba D'água Coração -. Argentina Castro 


16 O que os olhos (não) podem ver? 68 4 arqueologia onírico-poético-homoerótica 


- Thays Albuquerque no jogo performático em Lisa Alves 


18 qué los ojos (no) pueden ver? - Alexandra Vieira de Almeida 


a nodes Luguerane 78 Apurado do dia - Germana Acioly 


21 "Viúvas de Sal" - Cinthia Kriemler 83 Juliana Meira 


25 Mulheres transexuais e travestis 


86 Latinoamericana - Amanda Vital 
sobreviventes: onde estão as trans 


As 88 Uma brevíssima exposição sobre a 
em Sorocaba? - Thara Wells Corrêa 
multiplicidade da poesia contemporânea 


35 Palavras de Silêncio 


escrita por mulheres no Brasil 
- Adriana Minervina da Silva 


- Adriane Garcia 
40 Luta Cruz: A Revolução dos Pelos 


TI9 Poemas do livro "A bandeja de Salomé" 
- Iaranda Barbosa 


APRESENTAÇÃO 


Hoje festejamos a décima segunda edição da nossa revista. 
Nesta data reafirmamos nosso compromisso de nos mantermos 
firmes e fortes diante daquilo que não nos contempla. E como 
tão bem cantou a inesquecível Elza Soares*: O meu país é o 
meu lugar de fala. 


Nesta edição de 08 de março, contamos com a participação de 
dezesseis mulheres. Na pauta: poemas, crônicas, resenhas, 
contos, ensaios e muito mais. 


A Revista Laudelinas tem na sua gênese o fomento das artes, o 
diálogo sobre gênero e cidadania, e sobretudo a ressignificação 
do afeto (aqui cabe a tal da sororidade, lembram?). 


A professora e escritora americana bell hooks já alertava que o 
amor é mais do que um sentimento — é uma ação capaz de 
transformar o niilismo, a ganância e a obsessão pelo poder que 
dominam nossa cultura. | 


“Por isso estamos sempre alertas. Não cabe uma existência onde 
o fazer artístico justifica a omissão e a indiferença. 


Avante, Laudelinas! 
Taciana Oliveira, 


editora das revistas Laudelinas e Mirada 


*Álbum "Deus é Mulher" (2018) 


“STAMOS EM PLENO MAR| DEBORAH DORNELLAS 


há sempre barcos 

a deriva no mare não nostrum 

: botes, chatas, catamarás 

lotados de vozes e corpos 

que tentam travessias desde África e Ásia 

até as costas do continente com nome de deusa 
(que envelhece 

há séculos sem se dar conta) 


seus ocupantes, exaustos de acordar 
com o sol e dormir sob as estrelas 
úmidos famintos ondulantes, 

ainda sonham 

e esperam manhãs 

(com suas crianças a correr 

vivas 

pela terra nova) 


7. * 


é a humanidade 
a mover-se e desaguar sem vida 


numa praia estranha 
do lado de lá 


a humanidade inteira 
desterrada ou submersa 
nas costas de cada um de nós 


ÁGUAS | DEBORAH DORNELLAS 


não quero ser lago 
ou lagoa 


antes nascente 
FO 

riacho 

regato 

ribeirão 
córrego 

fonte 
correnteza 
queda d'água 


antes mar-oceano 
mãe maré 

ondas vagas 

na areia móvel 


7 4: * 


escolho o movimento 


e que não parem as águas 
e não morram os peixes 

e os humanos 

na mesma rede 


água parada apodrece 


Deborah Dornellas é escritora, jornalista e artista visual. 
Mestra em História (UnB - DF) e pós-graduada em Formação 
de Escritores (ISE Vera Cruz - SP). Integra o Coletivo Literário 
Martelinho de Ouro, de São Paulo, o Mulherio das Letras e o 
Clube do Conto da Paraíba. Tem contos, poemas e ilustrações 
publicados em diversas revistas literárias, sites e blogs de 
literatura. Em 2012, publicou Triz (In House), reunião de 
poemas. POR CIMA DO MAR (Patuá, 2018), seu romance de 
estreia, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2019 e 
venceu o Prêmio Literário Casa de las Américas 2019, na 
categoria "Literatura Brasileira”. Seu próximo livro, uma 
coletânea de contos, está em fase de edição. Vive atualmente 
em João Pessoa-PB. 


» : * 


Tete 


ESTRANGEIRA DESDE QUE NASCI | THAYS ALBUQUERQUE 


de onde eu venho” 

qual o ponto de partida? 

um traço numa cartografia d'áfrica? 
um pranto numa nau sombria? 
uma cor vermelha brasílica” 


há um caleidoscópio de travessias 


sou naturalmente estrangeira 
inúmeros espaços me habitam 

me oferecem ora descanso ora conflitos 
sou de todos e de nenhum 

novos territórios e tempos me buscam 


por ser atlântica, sigo o ritmo das ondas 


à deriva, creio no poder dos ventos 
me entrego à encruzilhada 

o futuro me olha com desejo 

toda terra é minha casa 


e o mei Lugar no mundo é negro 


sem saber de onde ou de quando, estou aqui. 


7. 


O QUE OS OLHOS (NÃO) PODEM VER?| THAYS ALBUQUERQUE 


você já pensou em voar? 

já sonhou voando? 

acho que boiar de braços abertos 
escutando somente 

os cantares do mar 


é uma forma de voar 


sei lá, os elementos se misturam 
como a faísca 

que se desprende da fogueira 
livre, ao vento 


é fogo ou ar” 


talvez, por isso, 

a palavra flutuar 

pode referir-se 

tanto à água quanto ao ar 


eu sei, são muitos devaneios 


7. 


tenho criado chaves caleidoscópicas 
para desvendar 

o que está distante, 

muito além do que, 

objetivamente, 


meu olhos podem ver 


você também faz isso” 


;QUÉ LOS OJOS (NO) PUEDEN VER2?| THAYS ALBUQUERQUE 


é VOS ya pensaste en volar? 

éya sofiaste volando? 

creo que flotar de brazos abiertos 
escuchando solamente 

Los cantares de la mar 


es una forma de volar 


qué sé yo, Los elementos se mezclan 
como una chispa 

que se desprende de la hoguera 
libre, al viento 


ées fuego o aire? 


quizá, por eso, 

la palabra flotar 

puede referirse 

tanto al agua cuanto al aire 


lo sé, son muchos devaneos 


o. 


estoy creando llaves caleidoscópicas 
para desvendar 

lo que está distante, 

más allá de Lo que, 

objetivamente, 


mis ojos pueden ver 


éVOS también hacés eso” 


Thays Albuquerque - Poeta, negra e feminista. Nasceu em Recife, em 1986, e vive no 
trânsito entre Pernambuco e Paraíba desde 2011, já que trabalha como professora de 
Literaturas Hispânicas na Liniversidade Estadual da Paraíba, em Campina Grande. 
Em 2020, concluiu o Doutorado em Letras, Teoria da Literatura, na Liniversidade 
Federal de Pernambuco. Em 2022, publicou o livro “o corpo e caleidoscópio”, pela 
editora Castanha Mecânica. Integra o Ariel Coletivo Literário, é uma das 
articuladoras do Podcast Tramando e do projeto As Poetas do Pajeii. Há anos articula 
a palavra com a imagem em produções de vídeo-poemas. Entende a Literatura de 
forma plural, como manifestação cultural cultivada nos mais diferentes espaços e 
por todo tipo de gente, e vivencia a poesia como uma postura diante da vida. 


Ethays.albugquerque.tk 


TRECHO DO ROMANCE VIÚVAS DE SAL | CINTHIA KRIEMLER 


(São Paulo, Editora Patuá, 2022) 


cinthia kriemler 


viúvas de sal 


Sebastiana anda devagar pelas ruas que conhece tão bem. Não sente saudade. Não há 
como sentir saudade dos seis ou dez caralhos entrando na sua buceta e na sua boca a 
noite inteira. Sujos de mijo, mal se aguentando em ereções ridículas. Ninguém tem 
saudade de trepar arranhando as costas em paredes sujas. De fingir vinte vezes o gozo. 
De pensar que alguma hora uma camisinha furada pode trazer a doença que não tem 
cura. Ela, agora, é dona de uma outra vida. Desde que se escondeu num beco perto do 
cais para fugir de um cliente violento. Drogada, surrada, sangrando pela boca. Mas se 
recuperou. E decidiu que não iria mais se prostituir. As amigas riram. Ela mesma 
duvidou. O corpo era o que lhe restava. Quando ouviu falar da mulher de Porto do 
Xaréu que queria fundar uma cooperativa só com viúvas de pescadores, ficou curiosa. 
Não era necessário experiência. Seguiu para lá com uma mala de poucas roupas. Depois 
que Tonha explicou o que era uma cooperativa, teve certeza de que o seu Lugar era ao 
lado daquela mulher estranha, forte. Quando o resto das suas coisas chegou, ela já 
estava morando na casa da pescadora Josefa. Longe do sexo obrigado e da violência. Lá, 
havia comida na mesa. Simples e pouca. Mas comida sem custo de porra e de sangue. 

Há outra memória insistindo. De uma mulher desabando na calçada suja. Binta. Que a 
fez lembrar de si mesma, e de tantas outras. Mulheres no fim de suas forças. Vítimas da 
derrota. Da impotência. Dos caminhos de fuga esgotados. No colo da mulher, uma 
menina se debatendo. Quando Sebastiana se agachou, viu que a mulher ainda 
respirava. Era um sopro fraco. Lim estertor. Mas ninguém ali ia morrer. Porque os olhos 
da menina que chorava e chamava pela mãe imploravam com uma urgência comovente. 
Havia tanto abandono naquele corpo pequeno que soluçava de medo. Sebastiana 
gritou. Pediu ajuda. Ela sabia que num instante as prostitutas e as travestis correriam 


até elas, sentinelas de um trágico teatro de sombras. 


Mais tarde, escutou do médico o que já sabia. A mulher que caiu na rua tinha 
desmaiado de fome. Sebastiana sabe como é a fome. A degradação, a fraqueza, o 
corpo trêmulo. Lembrou do ma rido morto por bala perdida. Briga no cais. 
Contrabando. Disseram isso dele. Ele que só tinha voltado para buscar uma rede no 
barco. Atingido mas costas pela polícia. Ela se revoltou. Problema dela. A 
investigação deu em nada. Mentira. Deu em desgraça. Sebastiana sem sustento, sem 
indenização, sem alimento para as três bocas que pariu uma atrás da outra. 
Desesperada. Cansada. De viver da caridade das igrejas, de mendigar nos sinais e na 
porta de bares e restaurantes. De tentar tomar conta de carros nos estacionamentos e 
ser expulsa pelos bandos que dominavam os pontos. De trabalhar como diarista, até 
começar a quebrar aparelhos, louças e bibelôs com as mãos pesadas e ásperas pelos 
calos. De perder empregos para mulheres mais jovens. Depois da desistência e do 
desespero, sobrou o corpo como moeda de troca. E a exaustão de se revezar entre as 
noites de sexo incessante e os dias de mãe. Até que não so brou nem pão. Na 
manhã em que deixou as crianças num abrigo prometeu que voltava à noite. Não foi 
capaz. Naquela madrugada, apanhou de um cliente. Somente muito tempo depois 
recuperou os filhos. Dois deles. A menina, nunca mais viu. Foi adotada. Por isso ela 
se reconheceu ma mulher de sotaque esquisito que acordou no hospital 


perguntando pela filha: Onde está Mariama? 


Cinthia Kriemler é carioca e mora em Brasília. Autora, pela Editora Patuá, de O 
sêmen do rinoceronte branco (Contos, 2020). Tudo que morde pede socorro 
(Romance, 2019); Exercício de leitura de mulheres Loucas (Poesia, 2018); Todos 
os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017) — finalista do 
Prêmio São Paulo de Literatura de 2018; Na escuridão não existe cor-de-rosa 
(Contos, 2015) — semifinalista do Prêmio Oceanos 2016; Sob os escombros 
(Contos, 2014); e Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). Organizou a antologia 
de contos Novena para pecar em paz a convite da Editora Penalux, em 2017. 
Tem textos e poemas publicados em diversas antologias e em revistas 
Literárias. O romance Viúvas de Sal (Editora Patuá, 2023) está disponível para 


pré-venda no site da editora. 


MULHERES TRANSEXUAIS E TRAVESTIS 


SOBREVIVENTES: ONDE ESTÃO 
AS TRANS EM SOROCABA? 


Thara Wells Corrêa! 


Realidade... 


Que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo, ninguém 
mais duvida. Os dados demonstrados no Dossiê/2022 da Associação Nacional 
de Travestis e Transexuais/ANTRA? comprovam que este segue incansável no 
projeto de marginalização e extermínio das pessoas trans, seguidos da 
omissão “conveniente” de um Estado (neste momento, considerado por 


mim, ultraconservador). 


Mesmo com o altíssimo índice de assassinatos de pessoas trans, 
principalmente, de mulheres transexuais e de travestis, as políticas públicas 
direcionadas a esta população são insuficientes. Lembrando que, as políticas 
públicas existentes foram criadas em resposta à incansável luta dos 


movimentos sociais ligados às transgeneridades e travestilidades. 
Onde estas as mulheres trans e travestis? 


Estudos realizados pela ANTRA? (Associação Nacional de Travestis e 
Transexuais) nos mostram que as mulheres transexuais/travestis são expulsas 


do convívio familiar em média, aos 13 anos de idade, levando-as a viverem 


'Mulher Trans, (Trans)Feminista, (Trans)Ativista, Militante pelos Direitos Humanos, Bacharela em 
Serviço Social, Mestranda do Programa Pós-Graduação em Estudos da Condição Humana, Universidade 
Federal de São Carlos - Campus Sorocaba. E-mail: thara.wells(Dufscar.estudante.com.br; Presidenta da 
Associação de Transgênero de Sorocaba- ATS; Conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da 
Mulher de Sorocaba (2018-2022). 


2Dossiê Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras 
de 2021- ANTRA-Associação Nacional de Travestis e Transexuais .Disponível 


em: https://antrabrasil.files.wordpress.com/2022/01/dossieantra2022-web.pdf/. 
Acesso em 01. Jun.2022. 


3 90% da População Trans no Brasil tem a Prostituição como Fonte de Renda. Disponível em: 
https://edicaodobrasil.com.br/2021/05/28/90-da-populacao-trans-no-brasil-tem-prostituicao-como-fonte-de- 


renda/ Acesso em Jan.2023. 


cercadas de muitas formas de violências, tornando-as precocemente 
adultas/responsáveis por si. Sem acesso à educação, sem apoio familiar, sem 
oportunidades de emprego formal — uma vez que não evadem, e sim, são 
expulsas das escolas por serem forçadas a acreditar que ali não é seu lugar, 
tendo como consequência à falta de capacitação profissional, corroborando 
com a estatística de que mais de 90% dessas pessoas têm na prostituição 


como o único meio de sobrevivência. 


“Ter na prostituição a única alternativa de renda não é garantia de 
sobrevivência, nem de renda. Estar em pé em uma esquina toda 


produzida, não garante o pão na mesa!” Por Thara Wells. 


A jornada como profissional do sexo para uma mulher trans/travesti é 
curta devido a toda depreciação física e psicológica que orbita neste universo. 
Após os trinta anos, estas pessoas já são consideradas velhas, e não mais 
desejáveis para os olhares dos clientes que as procuram, sendo obrigadas a 
disputar o mesmo espaço com as mais novas. Ainda nesta direção, vemos que 
as pouquíssimas mulheres transexuais e as travestis, que conseguem alcançar 
a terceira idade, além de solitárias, são esquecidas pelas famílias, pela 
comunidade LGBT+, além de abandonadas pela sociedade e invisibilizadas 
pelo Estado, que não garante um envelhecer com direitos, respeito e 
dignidade. Em alguns casos de profundo abandono, como estratégia de 
sobrevivência, algumas “(dês)transicionam”, ou seja, voltam para o “armário”, 
vivendo com gays afeminados, renunciando sua identidade por acreditarem 
que viverão com menos preconceito; ou então, transformam-se em cafetinas, 
transformando seus lares em “pensionatos trans”, abrigando e acolhendo 
outras trans mais jovens, ou mais vulneráveis — em alguns casos lamentáveis, 
com muita exploração e maus tratos, cobrando altos valores de diárias (com 
direito a uma refeição, e um lugar para dormir); outras, procuram inserção no 
mercado formal de trabalho, buscando capacitação em cursos 
profissionalizantes, num movimento desesperado entre o envelhecer, e o 


continuar existindo. 


Nada é garantia de êxito. Depende de como será o olhar da sociedade 
para estes corpos (siliconados ou não); para estas trabalhadoras, para estas 
cidadãs. 

Enquanto co-fundadora e presidenta da Associação de Transgênero de 
Sorocaba- ATS presencio, diariamente, a extrema vulnerabilidade em que 
vivem, suas tristezas, lutas, fraquezas, ansiedades, solidão, abandono, e sua 
fé! 

Mas onde estão as Trans? 

Enquanto pesquisadora trans, acessando alguns lugares (considerados 
pela sociedade cisheteronormativa) de privilégio, e colecionado o “primeiro 
lugar” em muitos deles, frequentemente algumas pessoas cisgênero (aquelas 
que estão em conformidade com o gênero atribuído ao nascimento, e com toda 
sua construção social) me questionam: onde estão as outras “iguais a 


você”? 


Pensem! Se pararmos pra analisar que, o Brasil, sendo o país que mais 
mata pessoas trans no mundo, é um dos países que mais consome 
pornografias com pessoas trans, segundo a revista Hibrida”, a partir da 
publicação do relatório sobre consumo de pornografias em 20 países que 
mais a consomem, publicizado pelo site RedTube,“[o0] Brasil, que nunca fica 
de fora dessa lista, demonstrou mais uma vez em 2019 o paradoxo de viver 
entre o desejo e o ódio em relação às travestis e transexuais”, uma vez que 
desde 2016, o Brasil é “o país que mais consome pornografia com pessoas 
trans [...]'. Desde então, estivemos sempre presentes na lista e permanecemos 
na liderança de outros sites internacionais como o maior público para esses 
vídeos. Assim, é emergencial refletir sobre essa relação de fetiche e ódio às 
pessoas trans, principalmente às mulheres transexuais e às travestis, podendo 
hipoteticamente dizer, que toda a vida das mulheres transexuais e travestis 


estão marcadas por esta relação, desde a mais tenra idade, em sua maioria, 


4 Paradoxo do Brasil no Consumo de Pornografia e Assassinato Trans. Disponível em: 
https://revistahibrida.com.br/2020/05/11/0-paradoxo-do-brasil-no-consumo-de-pornografia-e-assassinatos- 


trans/ Acesso em: 15.ags.2021. 


sempre submetidas a situações de opressões. É primordial que as 
vivências/sobrevivências dessas pessoas e suas histórias de vida sejam 
humanizadas, buscando entender as suas especificidades, além do 
aprendizado de reconhecer e combater todas as micro agressões -introjetadas 
ou não- na nossa cultura, contra as pessoas transgênero, travestis e 
transexuais. Citando como exemplo, o uso de maquiagens e outros signos 
sociais que identifiquem, ou que estejam relacionados ao feminino (dentro da 
construção social do que é “ser mulher”), desconstruindo as falas e as atitudes 
associadas às mulheres trans e travestis, reforçando o conceito da “transfobia 
recreativa”, embutidas nas situações quando algumas pessoas avistam uma 
mulher cisgênero, considerada “maquiada demais”, dizem: “essa mulher está 
tão maquiada, que parece “um” Travesti”, ou quando homens cisgênero saem 
para brincar no carnaval, vestidos com roupas femininas, de maneira caricata, 
fazendo gestos obscenos, se passando por travestis; ou quando alguém usa a 
palavra “travestida/o” para apontar uma farsa: “disfarçado de”. Algumas 
músicas, por mais inocentes que aparentem, reforçam essa visão recreativa 
das identidades trans na nossa sociedade. Como exemplo, citamos uma faixa 
cantada por uma dupla sertaneja de grande sucesso no país, na qual contam a 
história de um homem “cisgênero” que foi enganado por uma travesti. Em 
resposta, a ANTRA? divulgou uma carta aberta, posicionando-se contra a dupla 
sertaneja, que após receberem muitos posicionamentos dos movimentos 
sociais e ativistas da causa repudiando a atitude, a dupla se justificou, por meio 
das suas redes sociais, cometendo ainda mais deslizes, ignorando as 
diferenças entre sexualidade (orientação sexual) e identidade de gênero, 


justificando com a máxima: “temos até amigos gays”. 


* Entenda de Vez o que é Transfobia Recreativa. Disponível em: 


https:/Avww terra.com.br/'nos/entenda-de-vez-o-que-e-transfobia- 
recreativa a38eb0e7d2eea003487972a7c986df74c7s26k1r.html Acesso em Agosto. 2022. 


6 ANTRA. Carta Aberta em resposta a Músca LILI, da Dupla Sertaneja Pedro Mota e 


Henrique. Disponível em: <https://portalpopline.com.br/associacao-travestis-pede- 
cancelamento-lili-musica-transfobica-sertanejos/> Acesso em: 15. ago.2021. 


Mas onde estão as Trans? 


Nos anos de 1950, nos Estados Unidos, surgiu um movimento político, 
reproduzido ao longo da história contemporânea sob diferentes aspectos e com 
multifaces. Naquela década, emergia das “sombras da ignorância” uma ideia 
de que a sociedade ocidental da atualidade precisava se organizar para 
combater um inimigo, do qual não havia provas concretas da existência ou da 
construção de seus planos maléficos. Um verdadeiro “fantasma” a ser 
exorcizado. Naquele tempo, o principal fantasma a ser combatido era o 
comunismo — ou o que cada pessoa entendia por comunismo. Ao longo da 
história, esse mesmo fantasma vem esculpindo a política e o poder ao redor do 
mundo, sendo muito presente nos dias atuais. A Ideologia de gênero é um 
termo que foi cunhado pela igreja católica no início dos anos 2000, sendo 
difundido pelo neopentecostalismo até os dias atuais, compreendendo uma 
série de distorções feitas com o intuito de desmoralizar idéias, principalmente 
estudos de gênero e feministas, pulverizando esse medo invisível da vitória 
dessa ditadura da “ideologia de gênero”, tornando-se um desses exemplos de 
pensamentos fantasmagóricos (HAN, 2018), propagados pelas mídias digitais, 
pairando em muitos lares desavisados, corroborando para fortalecimento dessa 
falácia, alcançando os planos da educação (municipal e estadual) e da temida 
destruição da família tradicional (em suas formações falidas pelo próprio 
sistema hétero/cis/normativo), além de ter sido uma ferramenta decisiva para o 


fortalecimento da extrema Direita no país. 
Porque tanto medo das Trans? 


Esse pensamento ridículo contribui cada vez mais para a marginalização 
dessas pessoas, mantendo-as, cada vez mais, à margem dos seus direitos. 
Em 2018, palco das fake news “das mamadeiras de piroca e dos kits Gays”, 


foram constatados 420 mortes — por homicídio ou suicídio — de LGBTs”. Longe 


* Relatório registra 420 vítimas Fatais de Discriminação contra LGBTs no Brasil em 2018. 


Disponível em:https://Awww.brasildefato.com.br/2019/02/08/relatorio-registra-420-vitimas-fatais- 
dediscriminacao-contra-lgbts-no-brasil-em-2018/. Acesso em: Agosto.2022. 


da intenção de alimentar mais palavras sobre essa falácia, porém marcando 
aqui o repúdio sobre essa estratégia da implantação desse pânico moral que a 
chamada “ideologia de gênero” acompanha, muitas pesquisas analisaram 
como a disseminação das “fake news” pôde alcançar tantos lares mais 
temerosos. Esses discursos de ódio — disfarçados, cinicamente de liberdade 
de expressão — são um tipo de violência verbal, tendo âncora na “não 
aceitação do diferente”, configurando assim, um crime que fere a garantia de 
Direitos dos cidadão/as trans. 


Ademais, lamentavelmente, nosso país tem muita luta para desatolar 
desse momento triste e “lamacento” da nossa história recente; lembrando que 
mesmo o estado brasileiros sendo laico, muitos segmentos religiosos, em 
nome de um Deus e de uma idéia de doutrina, acabaram estimulando e 
construindo uma cultura de violência, de exclusão e de preconceitos contra as 
pessoas que “ousarem pensar, agir, e viver”, ou idealizar o contrário imposto. 
Tantos retrocessos, não podem, nem devem estar ancorados a um fantasma 
social, nem ser celeiro de narrativas como “ir para o céu, ou ir para o inferno”, 
nem mesmo servir de justificativa para legitimar a escolha de um 
representante, chefe de estado, alinhado em prol da destruição da dignidade e 
do respeito às pessoas mais vulneráveis. Isso sim deveria ser considerado 


crime hediondo e inafiançável. 


A educação sobre gênero e o respeito à diversidade sexual nas escolas 
precisa ser uma constante realidade, usados como forma de construir uma 
sociedade mais justa e igualitária, e não como forma de destruição, 
marginalização, impedindo, assim, o acesso e a permanência das pessoas 


trans. 


Que todas/es/os possam almejar e ajudar a reconstruir um país onde 
todas as famílias, independente das suas cores e formações, tenham como 
regra única a garantia do mínimo de dignidade: comida no prato, educação, 


trabalho e o direito de ter o Direito de sonhar com o Futuro. 


A verdade... 
Sabe aonde NÃO estão as trans? 


Começaremos respondendo com a dinâmica criada originalmente pelo 
Geledés Instituto da Mulher Negra para discutir a existência de toda forma de 
preconceito racial no Brasil. Façamos todas/es/os o teste do pescoço, e assim 
todas as dúvidas sobre a localização exata e “imóvel” das mulheres trans e 
travestis, serão respondidas. E se mesmo assim, ainda não foi possível 
localizar, seguiremos orientando a sociedade a girar o pescoço, espiar um 
pouquinho a realidade fora da sua redoma dos privilégios, esticando o pescoço, 
dentro da vida nua e crua de pessoas trans, e toda sua luta por sobrevivência. 
Muitas pessoas cisgênero privilegiadas, em sua maioria, só enxergam um 
objeto a ser estudado, alimentando de maneira ultrapassada, as pesquisas 
sobre “o que é, o que comem, onde habitam, e como se reproduzem”. Isso 
Basta! Somos muito mais que objetos de pesquisas brancas e cisgênero. 
Existe uma grande luta, que é renovada diariamente, a cada raiar do sol, para 
humazinar, respeitar, incluir e garantir a permanência de pessoas trans em 


todos os espaços sociais. 


Não podemos mais ter que voltar “algumas casas” para explicar o óbvio, 
como o uso do banheiro de acordo com a identidade de gênero, ou como o 
respeito ao uso do nome social, ou a não deslegitimação quando os 


documentos já estão retificados. 


Quando vir apenas uma de nós, antes de perguntarem “Onde estão as 
trans?”, respire, pense, e faça o teste do pescoço. Olhe, mas olhe mesmo! 
Não estamos na infância, por que desde o momento em os corpos trans já são 
identificados com divergentes da norma da cisgeneridade, e o olhar no espelho 
diz que algo ali não se encaixa, a falta de acolhimento familiar se torna 
determinante para entendermos como se constroem as estruturas de poder na 
sociedade, e a constatação, desde a mais tenra idade, de que vivemos e 


somos inseridas/os/es numa estrutura de poder patriarcal. E se mesmo assim, 


após todo exposto acima e o teste do pescoço, ainda não for possível 
identificar a nossa presença na infância, nas escolas, acessando os Hospitais e 
as Unidades Básicas de Saúde, nos cursos profissionalizantes, no Mercado 
Formal de trabalho, nos shoppings, nos espaços públicos, nas universidades, 


nos Mestrados e Doutorados produzindo conteúdo, sinto em lhes dizer: 


Nada saiu do lugar, e a maioria de nós, ainda continua lutando para sair 
dessa caverna de preconceitos, exclusão, silenciamentos, esquecimentos, 
invisibilidades, opressões, e muita, muita solidão. 

Afinal: Onde estão as Trans? 

Por Thara Wells. 


Thara Wells - Mulher Trans, (Trans)Feminista, (Trans)Ativista, Militante 
pelos Direitos Humanos, Bacharela em Serviço Social, Mestranda do 
Programa Pós-Graduação em Estudos da Condição Humana, 
Universidade Federal de São Carlos - Campus Sorocaba. E-mail: 
thara.wellsoufscar.estudante.com.br; Presidenta da Associação de 
Transgênero de Sorocaba- ATS; Conselheira do Conselho Municipal dos 


Direitos da Mulher de Sorocaba (2018-2022). 


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IARANDA BARBOSA 


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PALAVRAS DE SILÊNCIO| IARANDA BARBOSA 


Adriana Minervina da Silva 


Com prefácio de Adriano Portela e posfácio de Geórgia Alves, 
"Palavras de silêncio”, de Iaranda Barbosa nos apresenta universos 
que tocam a nossa fragilidade, nos convidam a revisitar nossas 
memórias e crenças já há muito tempo arraigadas em nossas vidas. 
Cada história contém em si um mundo de possibilidades em que o 
insólito talvez não seja o "inesperado", mas sim a violência "provável", 
fruto da hipocrisia nossa de cada dia. Essas narrativas nos convidam a 
refletir sobre o real e maravilhoso sentido de conhecer nossas 
tradições culturais, parte de quem somos e de como enxergamos o 
que nos cerca. 

A paisagem do Recife é palco de importantes reflexões que 
promovem encontros. Cidade de Maria Valente, da Menina Sem Nome, 
de um Holliday que guarda histórias de mistérios que gritam 
silenciosamente por justiça. Também da Conde da Boa Vista, da Ponte 
do Galo, do Marco Zero onde se unem tradições nossas representadas 
em já conhecidos personagens, como o Homem da Meia-Noite, a 
Emparedada e a Velhinha da Caxangá, pois a literatura promove 
encontros, imagens e o ecoar de vozes, como é possível ler em “O 


Gigante”. 


Em “Sacerdotisa”, percebemos um misto perfeito de trabalho entre 
fé, tradição, religiosidade e sincretismo representados na 
personagem Lilith, transgressora desde o nome que carrega. Sua vida 
é contada através de intensas quebras temporais e de 
deslocamentos que nos fazem questionar realidades: “Inaceitável 
Deus querer ser pai. Ele deveria ser mãe, porque cuida da família, não 
abandona os filhos, é capaz de dar a vida por eles” (p. 26). Uma 
menina com anseios de mudar o mundo e que, assim, consegue 
através dos estudos e do cuidado de sua mãe, honrando sua 
memória e sua fé. O conto traz em si uma triste história de intolerância 
religiosa resolvida após anos. História jamais esquecida, pois quem é 
filha de Oyá com Xangô certamente faz soprar ventos de justiça. 

“Vida Fácil” toca em um tema muito importante, sobre corpos 
dissonantes de nossa sociedade (as pessoas trans ou travestis) e o 
lugar socialmente destinado para elas, a condição de 
subalternização, o oculto, reservado. Não seriam elas dignas de 
serem publicamente amadas? E o direito à vida estaria, de fato, 
garantido? É um conto que reflete sobre o destino de alguém que 
sofre violência e preconceito, cujo final é infinitamente trágico. Em 
“Myosotis”, a imagem da flor se mistura à imagem da morte para 
trazer presente o contexto de restrições causadas pela Covid-19, bem 


como as milhares de vidas que foram ceifadas em decorrência dessa 


Em contos como “Stigmata”, “Femme-Crampon”, “A Musa”, 
percebemos a força coletiva dada às mulheres, que agem 
curiosamente modificando o destino das histórias. Em “O futuro a 
quem pertence?”, conhecemos Rosa e Raquel, antônimas na vida, 
unidas por laços que transcendem suas realidades. Esta narrativa 
ainda reflete que o julgamento social será sempre pesado quando se 
é mulher. Nesse sentido, em “Tempos não verbais” temos um caminho 
para vencer esses julgamentos: "Quantas mais deveriam morrer por 
dentro e por fora para que percebam que a única saída é se 
aquilombar?" (p. 30). A questão de gênero é um tema frequente que 
permeia toda a narrativa. 

Por tudo isso, "Palavras de silêncio" ecoa em nós, leitores, como 
uma prece de que sigamos desvendando seus múltiplos sentidos, 
numa leitura atenta, desejante, desafiadora de nossas crenças, 
olhares e experiências, por vezes não contadas, mas lidas através da 
literatura. Há um mundo a ser descoberto em cada página, há um 
fôlego a ser retomado à medida que as narrativas nos alcançam. É 
uma obra muito instigante, que quebra nossas certezas e nos 
direciona a enxergar por outro ponto de vista. Provocadora como a 


literatura de laranda nos é. Deixemo-nos afetar. 


Resenha por Adriana Minervina 


Adriana Minervina da Silva é graduada em Letras pela 
Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, possui mestrado e 
doutorado em Teoria da Literatura pelo Programa de Pós- 
Graduação em Letras da mesma universidade. Atua como 
professora de Língua Portuguesa no Estado de Pernambuco 
(Seduc-PE). Tem interesse nas áreas de Literatura Brasileira, 
com ênfase nos Estudos Culturais/Colonialidades e na 
representação literária de mulheres negras. 


a 


laranda Barbosa é Doutora em Teoria da Literatura (UFPE), 
crítica literária, professora e escritora. Em 2020, publicou a 
novela histórica Salomé (Mirada), finalista do prêmio Maria 
Firmina dos Reis (2021); em 2021 foi organizadora, curadora e 
colaboradora da Antologia das Mulheres Pretas (Mirada) e da 
coletânea Artemísias: vozes de libertação (Mirada), obra 
traduzida para o Espanhol em 2022 sob o título de Artemisias: 
voces de liberación; em 2022 lançou o livro de contos Palavras 
de Silêncio (Mirada), eleito o melhor livro de contos do ano pela 
FLIPO — Festa Literária de Ipojuca. Atualmente trabalha como 
professora do Departamento de Letras Espanhol da 
Universidade Estadual da Paraíba. 


CM 


Nu. 


E 


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ENSAIO | IARANDA BARBOSA 


Doçura, sensibilidade, meiguice, delicadeza, beleza, fragilidade. Estariam 
estas características relacionadas à mulher negra? Mais ainda: a uma mulher 
negra com barba e pelos no peito, nas axilas, nas pernas, na virilha? Ou 
seriam suja, violenta, sexual, escrava, exótica os termos mais associados, 
devido à herança racista e misógina da qual somos fruto? É ancorada nesta e 
em outras problemáticas que a cantora, compositora e ativista afro-chilena 


Luta Cruz nos apresenta o Manifiesto antirracista: 


Los mismos ojos de mi hermana 
Son los mismos ojos de mi madre 


Ambas apuntadas por igual 


Negras 
Sucias 
Cimarronas 
Violentas 


Sexuales 


Esclavas 


Y pienso 


é Tengo tiempo para preguntarme acaso si soy negra cuando me golpean en la calle? 


é Cuando me exotizan? 
éCuando me preguntan cuanto cobro” 
é Cuando quieres tocar mi cabello? 


é Cuando crees que no entiendo Lo que me dices? 


Y aun así te tolero 
Y te acercas a mí para seguir aprovechándote 

Disfrutam mucho nuestro silencio 

Adoctrinan nuestra identidad 

Toman nuestra música y la venden al mejor precio 
Siguen creyendo que estamos solos 
Y todo lo de afuera estuvo adentro mientras sonaba la voz de mi madre que me 
recordaba en diferentes ocasiones 
Tienes más oportunidad por ser clara, mulata, negra clara, morena, curiche, 
birracial 
Y el espejo me gritaba 
équieres um Lunar en el rostro? 
éLino sexy, como la Marilyn? 


Ma rilyn Monroe 


La mujer de todas las épocas 


Y yo con mi cabello liso y rubio y un maquillaje blanco mirándome al espejo me 
preguntaba 


éSOy ahora blanca 


Os versos de Luta Cruz nos proporcionam uma visão panorâmica de entraves, 
dilemas, inquietações, violências e atravessamentos que as mulheres negras 
vivenciamos ao longo da vida. Mãe e filha padecendo das mesmas discriminações 
devido ao tom de pele mais retinto. A irmã birracializada transitando no limbo: 
por um lado, na rua, escura o suficiente para ser bonita ou respeitada, por outro, 
em casa, clara demais para se autodenominar negra. Identidade silenciada, cultura 
apropriada, corpo invadido. As problemáticas se intercruzam no manifesto e nos 
impelem a refletir sobre a encruzilhada na qual se encontram mestiças, retintas e 
tantas outras que compõem o colorismo e a multirracialidade latino-americana e 
que pouco, ou quase nunca, disfrutam de privilégios e espaços de poder. 

Foi em meio a esses conflitos que artista em tela enfrentou contextos de 
violência advindos de relacionamentos abusivos compostos por agressões físicas e 
psicológicas. De acordo com a própria cantora, os abusos do primeiro 
relacionamento causaram perplexidade devido ao fato de que quem a agredia era a 
companheira que, apoiada pela mãe, endossava o discurso de exotismo ao expor 
Luta Cruz aos amigos e familiares, classificando-a pejorativamente como negra e 
peluda. Logo, a homoafetividade não é garantia de blindagem para o preconceito 
nem tampouco para a misoginia. Com relação ao segundo relacionamento, agora 
heteroafetivo, a afroativista revela que, além de situações semelhantes às 
anteriores, nas quais as mulheres da família estavam envolvidas, ela era impedida 


de participar de festas e comemorações familiares, devendo, dessa maneira, ficar 


reclusa em uma casa vizinha e comer em um prato separado. 

É imprescindível ressaltar que precisamos evitar julgamentos e juízos de valor 
referente à normalização e à naturalização com a qual Luta Cruz encarou até 
determinado momento as atitudes violentas. É importante que compreendamos o 
contexto mo qual ela estava inserida e como se deu a construção de sua 
personalidade em um país que apenas em 2019 reconheceu o povo negro como povo 
tribal afro-chileno e que, também em 2019, foi palco da morte de uma imigrante 
haitiana em condições suspeitas de negligência em um hospital público do Chile, 
após ser dura e injustamente acusada, pela opinião pública e por órgãos estatais, 
de abandonar a filha recém-nascida. 

Foram esses ambientes e contextos violentos que reafirmavam ininterruptamente 
a negritude e os pelos de Luta Cruz que a fizeram refletir sobre a sua corporalidade, 
ancestralidade e sobre o hirsutismo. Reconhecer-se em um corpo que não era do 
outro, mas dela mesma. Lim corpo cuja beleza estava composta por características 
que ela foi forçada a negar devido aos padrões sociais que a fizeram sofrer ao tentar 
se enquadrar nos modelos de feminilidade, entre eles, depilar-se. 

A rebeldia, sui generis à artista, insurgiu com força e, juntamente com o 
acolhimento de grupos de mulheres, entregou a Luta Cruz a bússola e o mapa que a 
direcionaram à consciência de uma negritude localizada num ponto de interseção: 
embora o “outro” se sentisse legitimado a agredir, ela estava fortalecida o 
suficiente para enfrenta-lo. O agora livre crescimento dos pelos promoveu a 
fertilização da negritude, fazendo Luta Cruz se olhar no espelho e encontrar o 
próprio valor, enxergar-se mulher, senhora de si, artista, ativista, ser humano. O 
despertar da ancestralidade retirou o véu de Ísis, incentivando-a a enfrentar os 


agressores. Reconhecer-se negra descortinou o amor aos próprios pelos. Ao mesmo 


tempo, a liberdade de mostra-se peluda surgiu com a necessidade de acolher outras 
mulheres e fortalecê-las. 

A revolução de Luta Cruz se inicia dentro do corpo-negro-peludo-empoderado e 
se reflete no rosto feminino com barba e bigode. A voz, a performance e a escrita 
seriam, a partir de então, as armas utilizadas para resgatar a cultura, a história e as 
narrativas roubadas pela branquitude. A cantora revoluciona ao organizar festivais 
com artistas Latino-americanos de maioria afrodescendente e movimenta estruturas 
até então desconhecidas para muitas pessoas. Os trabalhos começam a colher frutos 
significativos, como vencer o prêmio Queen Awards 2023, na categoria Melhor 
Artista Projeção de 2023, promovido pela Chilean Queens Playlist. 

Revolucionária, essa mulher peluda nos mostra que o feminismo, ou melhor, o 
afrofeminismo na América Latina possui demandas muito específicas e questões 
coloniais ainda muito evidentes nas estruturas dos países, haja vista a condição de 
objetificação e amimalização vivenciada por Luta Cruz nos referidos 
relacionamentos, e, claro, em diversas situações cotidianas. Os mecanismos de 
opressão e as tentativas de genocídio dos corpos negros seguem atuantes, 
sustentadas por instituições, pelo mito da democracia racial e pelas estratégias de 
apagamento da população negra, isso inclui o genocídio lento diário e gradual, 
sobretudo, dos mais pobres. Logo, os episódios de violência se fazem presentes nos 
ambientes laborais, educacionais, na assistência médica. Ou seja, nos espaços 
públicos e privados. 

Nas conclusões dessas breves linhas sobre Luta Cruz é importante trazer à ordem 
do dia que situações como as experienciadas pela artista infelizmente ainda são 
comuns em pleno século XXI. O fato de ser uma mulher jovem, bonita, 


inteligente, instruída e com família não impediu, e ainda não impede, que ela 


sofresse racismo porque ele está tão presente na estrutura social que a perigosa 
naturalização faz com que não o percebamos ou o normalizemos. Trazer histórias 
como as da afrofeminista é lançar um salva-vidas para aquelas que, na iminência 
de se afogar, consigam colocar o nariz para fora, respirar, chegar à margem e 


construir sua própria revolução. 


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laranda Barbosa é Doutora em Teoria da Literatura (UFPE), 
crítica literária, professora e escritora. Em 2020, publicou a 
novela histórica Salomé (Mirada), finalista do prêmio Maria 
Firmina dos Reis (2021); em 2021 foi organizadora, curadora e 
colaboradora da Antologia das Mulheres Pretas (Mirada) e da 
coletânea Artemísias: vozes de libertação (Mirada), obra 
traduzida para o Espanhol em 2022 sob o título de Artemisias: 
voces de liberación; em 2022 lançou o livro de contos Palavras 
de Silêncio (Mirada), eleito o melhor livro de contos do ano pela 
FLIPO — Festa Literária de Ipojuca. Atualmente trabalha como 
professora do Departamento de Letras Espanhol da 
Universidade Estadual da Paraíba. 


o. 


DE ATLÂNTICA COR | KATYUSCIA CARVALHO 


Lisa Alves 


De Atlântica Cor ou da Cor de um Nome Yanomami 


“há gente ali, 
onde ninguém olha 
há o outro do outro 


b) 


e há o não do não” 


(DOS ANTIDISTÓPICOS) 


Quem somos quando somos outres? Quem somos se olhamos para o mundo em 
outra perspectiva, em posições e vivências diversas e depois voltamos esse olhar- 
Viajante para O espelho? Iremos nos reconhecer? A poesia pode provocar esse 
olhar deslocado do que acreditávamos que éramos para um lugar-olhar menos 


colonizado?A poesia pode quebrar esse espelho viciado? 


Emprestar um olho/à primeira terceira pessoa que passa/ Tomá-lo de volta/ e ir se 
olhar ao espelho (PERSPECTIVA, pág. 15) 


Em “De Atlântica Cor”, Katyuscia Carvalho veste outro corpo.Veste outra 
cor.Veste outros nomes. Veste línguas extintas. Veste corpo-água-cor-atlântica. 
Desloca o olhar para se enxergar e para nunca mais ser um corpo carregado de 


pedraspedrocabralinas. 


pa 


A poeta nos reescreve essa fala de reexistência e diz que vestir de si é antes se 
desvestir desse uniforme de língua cortada, é se desconjuntar dessa subjetividade 
colonizada, para desaguar em um território mais plural e conseguir alcançar a 
profundidade desse corte onde pode ou não existir esse idioma possível para a 


palavra submersa: 


Qual a profundidade do corte de uma língua? / E em que idioma isso se pode dizer?(..) 
/ Reexistiremos uma fala / para as feridas que puseram em nossas bocas (..) / E não 


haverá reza branca em voz alta que suporte/o barulho do mar revolto em nossos 
pulmões. (ECO OU CANTO AO CAMPO AGORA MINADO DAS 
SUPREMACIAS, pág. 33) 


Aqui é poesia de enfrentamento e recusa e não apenas resistência no sentido de 
uma força que reage contra a ação de outra força. E o enfrentamento habita cada 
verso, habita cada verbo: ferir a pedra, ser mais que cisco, mudar o fogo de lugar, 
evadir de cada voz, mostrar todos os dentes.. ou como Katyuscia encerra o poema 


Furosidade: fora da fúria, não há salvação. 


“(JE se tocaias em frente aos palácios/ Mudando o fogo de lugar e de nome? (DOS 
SE'S..., pág. 35) 


Este livro é uma reescrita de um corpo coletivo, um corpo colossal, um corpo 
impurificável, um corpo contra o sagrado, um corpo com cabelos da cor de um nome 


yanomami que quebra todos os espelhos e deságua. 


Por Lisa Alves 


erre 


Katyuscia Carvalho - nasceu no interior de Pernambuco, com as águas 
de março de 1977. Graduou-se em Letras. Lecionou intensamente 


enquanto viveu no Brasil. Emigrou por amor. 


Tem poemas, traduções e ensaios publicados em revistas literárias de um 
lado e outro do Atlântico. Participou das antologias Blasfêmeas: mulheres 
de palavras, pela Editora Casa Verde; Porremas , pela Mórula Editorial, e 
Liberoamericanas, pela Libero Editorial. Seu primeiro livro de poemas, 
Vermelho Rupestre, foi publicado em 2015 pela Editora Patuá, que 
também está editando o segundo: De Atlântica Cor. 


Escreve porque não sabe cantar. 


Lisa Alves (Araxá,1981) é escritora e artista visual. Tem textos publicados em 
diversas antologias, revistas, jornais e páginas literárias no Brasil e exterior. 
Co-dirigiu os curtas Sou Indesejável (2018) e Depois do Sétimo Dia (2020). 
Teve trabalhos de videoarte exibidos em festivais no Brasil e no exterior. 


É autora de Arame Farpado (2015, Penalux) e Quando tudo for possível 
(2022, Mirada). 


ee“ 


TALVEZ O MILAGRE ESTEJA MESMO AÍ 


MARIA JOÃO CANTINHO 


Talvez o milagre esteja mesmo aí 


sem estar, afinal 


talvez esteja na asa 
rastejando o fio de água 


ou no modo como vês o azul nascer 


ou talvez só aí 
quando a luz irrompe em ti 
ou na página, 


esse «tanto faz» 


Ou talvez o teu olhar, 


querendo flutuar 


>.“ 


talvez aí esteja a tua raiz 
que não é raiz de coisa nenhuma 
talvez esse seja esse o milagre 


o teu, o de apenas quereres nadar 


e deixares-te levar 
como o vento suavíssimo de verão 
esse teu gesto 


o de querer deixar-se ir. 


Em modo de segredo, 
uma qualquer loucura desaguando 


e indo, indo. 


In «Escopro e Luz» 


Maria João Cantinho nasceu em Lisboa, em 1963. Estudou Filosofia na 
Universidade Nova de Lisboa, onde defendeu dissertação de 
doutoramento. Com diversas publicações científicas em revistas 
académicas, é actualmente professora do ensino secundário. Membro 
integrado do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e do Collége 
d'Études Juives (Université Sorbonne IV), organizou vários congressos na 
área de Filosofia, bem como co-editou diversos livros sobre vários 
autores (Celan, Levinas, María Zambrano, Walter Benjamin). Colabora 
em diversas revistas de literatura. Publicou 5 livros de ficção (em 
Portugal e no Brasil) e quatro livros de poesia, bem como três livros de 
ensaio. Foi nomeada como finalista do Prémio Telecom, em 2006, com o 
livro “Caligrafia da Solidão” e foi nomeada como uma das ensaístas do 
ano com a sua obra “O Anjo Melancólico” pelo Professor Eduardo Prado 
Coelho, foi vencedora do Prémio Glória de Sant'anna em 2017, pela sua 
obra «Do Ínfimo» e foi galardoada com o Prémio PEN ensaio em 2020, 
pelo seu ensaio «Walter Benjamin: Melancolia e Revolução». É Directora 
da Revista Caliban. É membro da Direcção do PEN Clube Português e 


membro da APCL. 


MEU LAMPIÃO NÃO TEM LUZ | THAIS GUIMARÃES 


Eu agora vou contar uma história da minha infância que escutei da minha avó no 
sertão do Ceará. 

Meu avô era da labuta. cabra muito trabalhador. Com o suor do seu esforço, 
cuidava de uma fazendinha nas bandas da Paraíba. Era ali que ele vivia com minha avó 
Umbelina, minha tia Francisca, com apenas 12 anos e, também. a tia Antônia com seis 
meses de nascida. 

Eis que recebe a notícia: Lampião estava chegando. Meu avô que já sabia que o 
homem não poupava menina-moça em botão, tomou então seus cuidados. Disse pra ela 
ganhar mundo. pra correr e se esconder, porque Lampião chegava e gostava de menina- 
flor. Tia Francisca correu légua, quando viu uma cisterna aberta foi ali que se jogou. 
Minha avó então juntou os poucos dinheiros que tinham. pôs num chifre de boi que 
escondeu no paiol. Logo Lampião chegou. Ele e todo seu bando mandaram servir comida. 
Minha avó muito aflita fez uma cabidela de Angola. Lampião pediu cabrito. Foi cozido pra 
noite inteira. pois ali Lampião pernoitou, ele dentro de casa e seu bando ao relento. 
Queria saber da mocinha que deixara as roupas ali. Minha avó disse que estava na casa 
de sua madrinha. Lampião queria o dinheiro, então botou tia Antônia. que era ainda 
bebezinha, no corte de sua peixeira, tentando negociar. Minha avó implorou, tia Antônia 
sangrou um pouco, mas o dinheiro ficou. Ao final de quase dois dias, com a casa revirada. 


Lampião juntou seu bando e foram buscar outro canto. botou fogo em tudo que havia na 


» . * 


terrinha do meu avô. 


Nada fez com meus avós. porque eles não eram ricos. De riqueza, tinham Chica e 
Antônia com seus olhos de turmalina. Mas Francisca foi quem penou. No fundo da 
cisterna. onde ela se escondera, a menina já comia terra. escavada com as próprias 
unhas. Foi achada em sete dias, muito fraca e combalida. Por mais sete emudeceu. 

Até que meu avô decidiu que era hora de se mudar, escolheu a Vila Estrada. bem 
perto de Iguatu. pras bandas do Orós, no sertão do Ceará. Mas Francisca pegou 
loucura. da qual nunca se livrou. 

Foi lá na Vila Estrada. onde brinquei na infância, busquei água em açude. puxei 
mula e jumento que aprendi a me defender. Hoje, a criança que fui, no sertão do 
Ceará. ainda guarda as memórias das noites ao pé do fogão. em cozinha iluminada por 
luz de lampiões. da saga de tia Francisca, que não escapou do escuro de um outro 
Lampião - homem cantado em versos por sua valentia. que fez muita festa nas vilas. 
saqueou ricos, distribuiu parco dinheiro e vendeu sua proteção, assim como as milícias 
modernas. 

Foi perverso em demasia, daqueles que não tinham dinheiro saqueava as próprias 
filhas, ou mesmo suas mulheres se lhe interessasse a beleza. 

Para mim. que tenho a história na história de meu sangue, o rei do cangaço é o 
icone terrível de um valente cabra macho que carrega todo o abuso do sistema 
patriarcal. 

Embora eu reconheça a riqueza da estética cangaceira, concordo com Adriana 
Negreiros, a biógrafa de Maria Bonita: temos que ser responsáveis com a história. 


Thais Guimarães. mineira, nascida no Ceará. é poeta e escritora. Tem as 
seguintes publicações:- Jogo de Cintura ; - Dez Pretextos para uma noite 
de solidão: - Jogo de Facas: - Seis Poemas; - Notas de Viagem: - A 
Poetisa (que ganhou 1º LUGAR NA OFF-FLIP/2019) e Uma praça 
chamada Liberdade ( escrito em parceria com o poeta Carlos Ávila). 
Ganhou um Prêmio Jabuti, em 1988, com o infantojuvenil - Bom Dia, Ana 
Maria. E publicou, em abril deste ano. o infantil “Senhor Relógio”, com 
ilustrações de Silvana de Menezes.Desde os anos 1980, coordena, 
pontualmente. oficinas de escrita para jovens e para professores. 
Paralelamente. trabalha no setor do audiovisual, tendo sido coautora do 
roteiro do documentário “Cbra Falada”, que mostra como as pessoas com 
deficiência visual constroem suas relações com as obras de arte 
contemporânea. 


» . * 


DAS VULVAS DE QUE NASCEM AS POETAS | RENATA PIMENTEL 


das vulvas de que nascem as poetas 


os figos são flores que crescem para dentro 

| comê-los é contaminar-se da modéstia do que não se exibe 
mas também não se exime. 

os figos não se curvam aos elogios de casaca 

| não se rendem às facilidades de toalete plástica 

, são orações mudas e implosões de sentidos 


as vulvas de que nascem as poetas 
não são um conjunto genital de partes externas 
são figos 
e híbridas searas 
podem abrigar um corpo além 
é gente que gera 
é mulher que não espera 
pode ter qualquer genitália 
pênis vagina teta cotovelo lingua dedo umbigo orelha dedo 
perna 
as poetas inventam seus corpos e suas primaveras 


PA 


Renata Pimentel, graduada em Letras, Mestra e Doutora em Teoria Literária pela 
UFPE. Desde 2010 é professora de literatura na Universidade Federal Rural de 
Pernambuco (UFRPE). Publicou Uma lavoura de insuspeitos frutos (ed. Annablumme, 
São Paulo, 2002): Copi: transgressão e escrita transpormista (ed. Confraria do 
Vento, 2011: 2º edição revista e ampliada, 2022): da arte de untar besouros (poesia, 
ed. Confraria do Vento. 2012): denso e leve como o voo das árvores (poesia, ed. 
Confraria do Vento. 2015); a harmonia secreta do caos, 2022): além de diversos 
artigos em vários periódicos. bem como organização e capítulos de livros. Tem 
formação também em dança clássica e teatro: atua nas áreas criativas da 
dramaturgia em dança contemporânea e artes da cena. escreve dramaturgia para 
teatro e roteiro para audiovisual, além de atuar e trabalhar com curadoria e 
pesquisa em artes visuais. Foi colunista do JC on line e da Revista e site CutrOs 
CríticOs. 


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BOMBA D'ÁGUA CORAÇÃO | ARGENTINA CASTRO 


Era uma bomba d'água como outra qualquer, não fosse o fato de ter ficado guardada 
no coração e na memória afetiva de algumas poucas pessoas, que nela já tinham 
colocado as mãos. Ficava na frente da casa, que era separada das demais da rua 
apenas por uma cerca de arame farpado. Todas as manhãs, a bomba d'água era 
cercada por pessoas de todas as idades, munidas de baldes e bacias. Ao lado da 
bomba, uma cacimba que, tantas vezes, era transformada em piscina pelas crianças. 
Sim, era lá que as meninas, vestidas apenas de calcinha, davam as mãos e, de três 
em três, entravam de um fôlego só e submergiam até o terceiro anel dos canos largos 
feito de cimento que, sobrepostos uns sobre os outros, davam largura e 
profundidade àquela pequena cacimba. Brincar de mergulhar na cacimba não perdia 
nem para a brincadeira de fazer comida de verdade, chamado no bom linguajar 
cearense de guisado. O guisado era um treino para que as meninas aprendessem 
Logo a fazer comida, enquanto os meninos corriam os quintais, brincando de polícia 
e bandido. Mas, voltando ao que eu estava falando, a bomba d'água não era somente 
um pedaço de ferro enferrujado, preso a um pedaço de madeira e que, tendo sua 
mão- -manivela impulsionada por mãos humanas, trazia a água do fundo da 
cacimba para dentro dos baldes e desses para as pias e tinas — uma espécie de bacia 


feita com pneus velhos. Aquela bomba d'água era o coração que unia aquela gente. E 


o sangue que bombeava suas artérias, seus canos e ferros era formado de água! As 
águas do fundo do chão, aquele chão barrento, enlameado. Era essa água que nutria 
as panelas, aquecia os alimentos, esfriava filtros e potes depois de ser coada por um 
pano branco e Limpo. Banhava os corpos mirrados, matava a sede dos animais — 
cavalos, gatos, cachorros, vacas. Fazia sorrir os bebês ainda sem dentes, submersos 
até a cintura dentro das bacias-banheiras. Era com ela que as roupas eram lavadas e 
ficavam branquinhas a secar no varal de arame farpado. Os tecidos ali, todos 
furados, fazendo sombra-dançante sobre o piso vermelho feito de pó xadrez. O café, 
ai, o café! O líquido quente e negro a aquecer, melhorar pensamentos e adoçar a 
vida. A bomba d'água era uma entidade silenciosa a ouvir as conversas jogadas fora, 
a hora das notícias, as fofocas, os risos, as arengas-brigas dos meninos. Meu pai, 
bombeiro hidráulico e fazedor de bombas, mas também vaqueiro, antes de tudo. 
Minha mãe-indígena, botando água para ferver ou no girau-pia lavando a louça. 
Nós, meninas e pequenas, carregávamos baldes cheios e, tantas vezes, maiores que 
nosso próprio corpo miúdo. Os baldes cheios que derramavam, nós nos 
derramávamos naquela água-líquido-coração-sagrado. Hoje, coluna torta, pés que 
doem, alma que chora. A bomba d'água descubro, décadas depois, para compor esse 
Livro e encontrar, dentro de mim seu nome, embora não exista mais, compõe a 
paisagem de minha casa de sempre, mas feita de ferro e água, enferrujou-se por 
completo e, os últimos goles misturaram-se ao sangue que pulsa e dá vida ao meu 
coração. Bomba d'água-coração são as minhas poucas, mas fortes, memórias deste 


Lugar de onde eu fui e que ainda sou. Sou eu e as meninas da minha infância a nos 


banhar naquela cacimba rasa, mas nem por isso menos mágica, menos piscina, 
menos mar. O mergulho, os olhos abertos e o sorriso a sorrir borbulhas de confiança 
mútua e ali eu já sabia sobre o significado da frase “ninguém solta a mão de 
ninguém”. Ali, dentro da cacimba, indo até o fundo, precisávamos confiar umas nas 
outras e garantir que o medo não iria nos impedir os mergulhos. De alguma forma, 
em meio a tantas ausências, existia alegria. Era a fartura de água fresca em terras 
quentes nos mostrando que “perto de muita água, tudo é feliz”. A bomba d água que 
pulsa em meu coração também é memória e, se é memória, é não só passado, mas 
também presente, a bolinar no que eu sou agora e, agora eu sou afeto e respeito 
àquela gente que me formou, cuidou e regou como gente-planta-flor. Se hoje eu sei, 
ou talvez não, o que sou, é que não esqueço a origem da água que jorra em meu 
peito e que me nutre, me oxigena, me aquece, me Levanta, me hidrata, mata a minha 
sede, refresca minha alma, me encoraja, me abençoa, me enlouquece e, também, me 
protege. Bomba D'água-Coração é meu pai, a segurar firme a minha mão e me deixar 
sem medo. É minha mãe e sua barriga encostada em um fogão, nutrindo nosso 
corpo-casa com feijão e farinha. É, ainda, minhas irmãs e meus irmãos. Meu sorriso, 
meu choro, minha oração, as histórias de meu pai, o silêncio sábio de minha mãe. 
Eu sou aquela bomba de cor cobre-ferrugem, aquela gente. Essa dor que habita meu 


coração. 


Conto publicado no livro Bomba D'água Coração ( Selo Mirada, 2022) 


Argentina Castro - Antropóloga, escritora e produtora cultural com mais de uma 
década com experiência em trabalhos de gestão e coordenação de projetos nas 
áreas de cultura, educação e inclusão social. Idealizadora e fundadora da 
Biblioteca Comunitária Papoco de Ideias na periferia de Fortaleza-CE. Participa 
de algumas antologias e publicou em 2022 o livro de Contos Bomba D'água 
Coração pelo Selo Mirada onde também é curadora. Membro da coletiva Escritas 
Periféricas Elas Poema. Foi uma das selecionadas no Edital Arte como Respiro do 


Itaú Cultural (2020). 


A ARQUEOLOGIA ONÍRICO-POÉTICO-HOMOERÓTICA NO JOGO 
PERFORMÁTICO EM LISA ALVES | ALEXANDRA VIEIRA DE ALMEIDA 


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Tenho um livro de obra de arte em mãos, que se serve a inúmeras performances 
artísticas, um misto que se abre como um leque imaginário a nos fazer 
refletir/entreter/comover no âmbito do sonho que margeia a realidade, uma 
realidade plena de sentidos, porque escolhe a via da arqueologia para comunicar 
aos leitores/seres originários, em sua primogênita genealogia, de onde viemos 
como seres de desejos e prazeres esquecidos pela maquínica sociedade do 
consumo e do caos, desumanizada, a nos dilacerar o contorno dos corpos. 

A partir de imagens, obras de arte, inscritas na capa, na contracapa, no marcador 
de textos e num cartão postal, que se somam à obra-escrita, como objetos do 
onirismo visceral de Lisa Alves, “quando tudo for possível ou uma declaração 
(Mirada, 2022), esta segunda expressão escrita em vermelho e riscada em linha 
vermelha, a ocultar/revelar o que se esconde nas dobras do texto, “ou uma 
declaração”, é uma negação a todos os imperativos categóricos, a toda mancha 
vermelha da violência engendrada pelo sistema corrosivo de uma realidade que 
teima em se calar, mas Lisa não se cala, nos apresenta um jogo cuja performance 
une várias mídias, desde a Literatura, as artes plásticas, e o artefato sonoro, a 
partir de um audiobook, em que a voz da poeta Lisa Alves se une aos sons e 
labirintos de uma realidade tortuosa, revelando através das avenidas do desejo 
mais arcaico, a tessitura de um drama feito de linguagem e corpo, memória e 


esg uecimento. 


Utilizando como mote a repetição e, ao mesmo tempo, a variedade semântica e 
linguística, num sonho pintado com grande beleza e lirismo, sua poesia acende a 
chama originária, aquele fogo primitivo que nos embriaga, como o álcool mais 
forte na caverna do sonho esquecido, mas resgatado como memória do prazer e do 
sensível. As sensações são impactantes em sua poética que grita e sacode o pó dos 
antepassados, para nos falar de forma mítica, filosófica e arqueológica de um 
fogo originário que nos forjou no delírio do som, do eco, do ruído, numa caverna 
lapidada com mesura e maestria por suas imagens originais e reflexões 
complexas e profundas, em que duas mulheres se desdobram nas inúmeras 
mulheres, silenciadas pelo poder opressor. 

Trabalhando um único poema dividido em quatro partes, as estações do ano, sem 
seguir a ordem linear e cronológica, Lisa Alves transgride, inverte o natural em 
sua dimensão de realidade física, atingindo os relevos dos sonhos, pois esses 
como mundos transgressores da lógica opressiva de um universo unilateral, nos 
revela o múltiplo em quatro sonhos que atravessam o cotidiano e a trivialidade 
da concretude das coisas. Numa diagonal ou transversal de silêncio e som, do 
arcaico e contemporâneo, sua poesia funde mundos diferentes, mostrando, dessa 
forma, o desejo, a relação homoafetiva, como corte na imago de uma realidade 
fria e anêmica, seus versos se vestem de tinta vermelha, dos afetos e das paixões 
pelo sensório, mas também pelo pensar-sentir sobre os atos e gestos da vida a 
duas, com seus encontros e rupturas, prazeres e dores, paixões e reveses, 


alumbramentos e desilusões. Inverter a ordem das Letras é transfigurar a hóstia 


da vigília, do acordar no desejo do onírico, que invade as janelas perceptíveis 
dos corpos e mentes destes seres que se desdobram na espiral dos versos como 
analogias dos mitos fundadores, dos primeiros seres, andróginos, que moldaram 
o mundo. Vejamos esses belíssimos versos, do inverno, o primeiro sonho: 
“pensar em você é confuso/pensar em você é caminhar na escuridão/pensar em 
você é tocar em mãos/que ainda não existem//(ou encarar/uma Llinguagem/sem 
palavras)”. 

Assim, isso que é imaginativo, o desejo se preenche de belos versos que 
caminham pelos trapézios do inaudito. Porque enquanto desejo, o imaginário se 
torna mais fértil, antes de sua realização concreta, antes da arquitetura dos corpos 
em consubstanciação carnal.O ser que ainda não existe, aquele que trafega nas 
ruas do sonho se torna mais belo aos olhos daquela que confabula com o mistério 
da polesis. A poesia é o espaço, em que o imaginativo e inventivo transpiram o 
oxigênio mais real que a morte, que nos esquarteja os sonhos e os sentidos. O 
pulsar da vida e a pulsão do prazer equacionam a movência de seus versos líricos 
e plenos dos símbolos da contemporaneidade que mordem as maçãs do ontem, 
do mais primitivo e inaugural. 

No segundo sonho, a primavera, as imagens perfeitas de duas mulheres, senhoras, 
embebidas pelas águas míticas, vêm nos falar de uma escuta. Sua poesia se 
apresenta como obra performática, para que o trabalho de escuta, de atenção, se 
faça presente, se presentifique no aqui e agora da leitura. Enquanto lemos o 


Livro, acompanhado do áudio, perfazemos o itinerário mágico e dramático das 


das inúmeras artes que se misturam na sua tessitura híbrida, anfíbia, a desejar o 
entrelugar do horizonte, entre o cá e o lá (literatura, artes plásticas, música e 
cinema).Litilizando outras línguas, abordando o mito dos povos hispano- 
americanos, Lisa Alves ultrapassa a medida humana, o métron de uma 
humanidade imperfeita, para vislumbrar o tempo da eternidade, “El tempo no 
existe”. Transpassa nosso tempo comum, o cronológico e finito, para atravessar 
com sua lança mítica o atemporal, que percorre todas as épocas e que reverbera 
como movimento incessante, a roda que gira sem parar. Assim, O movimento 
como elemento performático também se mira na sua escada de desejos e sonhos 
que vão além da medida, da lógica racional, que nos oprime e escraviza, com um 
relógio a nos corroer a expectativa do imemorial e do que não pode ser medido 
com uma fita métrica: "Nekhbet, Liadjet/duas mulheres, duas senhoras”. E 
arrematando essa seção, nos diz em espanhol: “Miles y miles de mujeres/se 
comieran durante diez mil afios”. Aqui, a metáfora arquetípica é combustão 
erótica que reverbera como eco no caminhar da humanidade. Aquela arqueologia 
animada pelo jogo onírico-poético-homoerótico da performance artística, que 
teatraliza em versos o fogo criador do lampejo do poético feito carne, do verbo 
transfigurado em arte. 

Na terceira parte, O terceiro sonho, verão, cresce, se agiganta cada vez mais essa 
performance arqueológica dos sentidos, do prazer em geral, não só o erótico, mas 
o que nos cabe enquanto indivíduos no nosso dia a dia, como apresentados por 


Freud em sua obra, o tal princípio do prazer, pois tudo que sentidos e tocamos, 


ou rejeição. E aqui, também, o vocabulário ou semantismo teatral, o gênero 
dramático, costura e consome as labaredas de seus versos magistrais. Vejamos: 
“Respeitável público, /o que é que cai e cai e cai e cai?” Nesse momento, 
nesse instante-já inaugural, temos o retorno a nossa infância, à curiosidade 
da criança em desbravar o mundo com suas viagens pelos mapas 
desconhecidos do mundo. A criança sempre está a perguntar, querendo 
respostas aos seus enigmas e perguntas inusitadas. A criança sabe falar essa 
linguagem dos princípios, na filosofia perene e questionadora dos pequenos. 
E Lisa Alves sabe muito bem disso. 

À guisa de conclusão, adentramos sua parte mais densa e profunda, a seção 
mais Longa da obra hipnótica de Lisa Alves, o quarto sonho, outono, em que o 
elemento da melopeia se faz mais presente, para além da imagem e do 
conceito, retomando a pedra drummondiana em outro sentido, com sua 
própria dicção e tonalidade. O quarto sonho tem um adendo, a expressão, ou 
quando tudo for possível”. Expressão essa cortada por uma linha profunda, 
demonstrando a ambiguidade de a Linguagem relevar ocultando os sentidos. 
O silêncio que vem após o grito, o ruído, a linguagem é ensurdecedora. 
Faz-nos mirar a nós mesmos, esse silêncio que é o próprio abismar-se sobre 
si mesmo, no processo alguímico do lapidar da pedra mais bruta em som, 
movimento, palavra. A própria poesia se criando e recriando belamente pela 
urdidura das Letras, sons e ritmos. Numa caverna habitada pelos prazeres das 


pedras, das saliências, dos buracos, da superfície das peles à profundeza dos 


mais fundos poços, a linguagem aqui encontra seu ritmo mais erógeno, 
atingindo as escalas do desejo em gritar e repetir à exaustão, comouna petite 
mort que não se cansa em gradativamente crescer como as palavras que se 
repetem em diferentes equações e combinações. Vertiginosamente, como um 
iluminar imaginário para dentro de uma caverna obscura, os elementos poéticos 
se assombram, se espelham, se invertem, se combatem, para, enfim, 
eroticamente, se unirem muma ars combinatoria em que os corpos falam a 
linguagem da chama ardente do ato sexual, que num crescendo, levam à pergunta 
mais ardente: um corpo precisa de outro corpo para existir, a outridade é 
possível num mundo cruel, é necessária e urgente a escuta, a comunicação que a 
poesia nos oferece através de Lisa Alves, que vem nos brindar com um convite ao 
amor entre os seres, que se dividiram por questões de cor, gênero, religião, visão 
política, entre outros. 

O sentir-pensar-corporificar de Lisa é uma performance de nossa arqueologia 
mais humana, o desejo do encontro, da escuta, da combinação entre o eu e o 
outro, pois sua existência só tem sentido se existir a outra parte, aquele que se 
torne leitor ou espectador, pois a plateia só é possível, assim como o ser só é 
possível, mo seu contato, no seu calor, no seu desejo de estar e interagir, 
conversar com o outro. E nisso, o Livro de Lisa Alves é perfeito, ao reunir numa só 
obra, conhecimentos esquecidos por uma linguagem esquecida”, que se tornou 
digital, quando antes era analógica, só para utilizar o conceito do teórico e 


psicanalista Erich Fromm. Que esta pérola poética que é o livro de Lisa Alves 


encontre aqueles que estejam aptos a essa escuta originária e inaugural. Um Livro 
para ser relembrado pelas épocas vindouras e que receba excelentes críticas e 
prêmios, porque merece e está à altura de grandes poetas.A pedra, a mineralidade 
e aridez que o corte, a ruptura sangra, se converte na beleza do Amor, o Amor que 
é a escuta, para dentro de si (o eu) e para fora do eu (o outro), em que o interno e 
o externo se tocam pelos acordes do ouvir, do perceber, do auscultar, com atenção 
e cuidado, que a Arte de Lisa Alves soube explorar sabiamente e sensivelmente 
nessa obra ímpar e singular. A poeta mineira termina primorosamente seu Livro 
como um convite à escuta: “meu amor/tentei enviar uma pedra para você/mas o 


amor é uma escuta”. 


Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, resenhista e ensaísta. É 
Doutora em Literatura Comparada (LIERJ). Trabalha como professora na Secretaria 
de Estado de Educação (RJ) e foi tutora de ensino superior a distância na LIFF (8 
anos).Tem poemas vertidos para o inglês, espanhol, alemão, italiano, holandês e 
chinês. Publicou oito livros de poemas, sendo o mais recente, A mecânica da 


palavra (Penalux, 2022). 


Lisa Alves (Araxá,1981) é escritora e artista visual. Tem textos publicados em 
diversas antologias, revistas, jornais e páginas literárias no Brasil e exterior. Co- 
dirigiu os curtas Sou Indesejável (2018) e Depois do Sétimo Dia (2020). Teve 
trabalhos de videoarte exibidos em festivais no Brasil e no exterior. É autora de 


Arame Farpado (2015, Penalux) e Quando tudo for possível (2022, Mirada). 


APURADO DO DIA | GERMANA ACCIOLY 


Acordei com um cansaço, carregando comigo a data. 

Justiça 

Luta 

Liberdade 

O café da manhã engasgou minha garganta. O pão, o queijo de 
todo dia. 

No caminho para o trabalho, no Uber, a rádio pregava a 
mulher virtuosa. Aquilo quase embrulhou meu estômago. 
Quando chego, ainda na catraca, recebi do guarda municipal 
um: “Parabéns pelo seu dia”. Respondi delicadamente: 
“Obrigada! Dia de lukal”. Esta frase, aliás, não sei quantas 
vezes repeti. Para a moça dos serviços gerais, para o 
pessoal da portaria, no restaurante do almoço, na academia 
de ginástica. Eu queria somente agradecer, mas a resposta 
automática é involuntária. “Obrigada, é dia de luta”. 

Sento no meu computador e nas redes sociais, os feeds 
estão chejos de frases e fotos e vídeos sobre o 8M. “Dia da 


mulher é todo dia”, dizem alguns. Quem dera fosse. 


7: * 


Começa a sessão e as mulheres estão na presidência. Apenas 
hoje. É um gesto, eu sei. Avançamos. Faz 490 anos que temos 
o direito de votar. Se somar TODAS as vereadoras do Recife 
em TODOS os tempos não dá uma legislatura inteira. 
Traduzindo: se todas as vereadoras do Recife eleitas em 
todos os tempos pudessem se reunir num plenário, não 
preencheriam as 34 cadeiras que existem. 

Começo a ouvir os discursos das mulheres. Elas falam, 
desengasgam as dores, reiteram nossos direitos, expõem as 
desigualdades. E os homens, que são maioria no plenário, 
olham no celular. Apenas escutam aquela melodia cadenciada 
do discurso. Mais um. 

De vez em quando entram umas assessoras no gabinete com 
umas caixas e perguntam: “quantas mulheres trabalham 
aqui?” Eu respondo e recebo em troca sonhos de valsa, em 
homenagem ao meu dia. De luta. 

No almoço, ganhei do dono do restaurante mais um. Deve ser 
pra adoçar o amargo do dia. 

No parque 13 de maio, a batucada feminista se ordena pra 
sair. Mais um 8M, no país democrático em que as mulheres 
têm menos representação na política do que o Afeganistão. 
Encontro algumas companheiras e o abraço gratifica, 


fortalece, forma rede. 


7: * 


Chego em casa, cansada, e decido ir à academia de ginástica, 
para não perder o ritmo. Na saída, uma das atendentes me 
presenteia com um espelhinho de bolso. “Parabéns pelo nosso 
dia”, ela me diz com um sorriso aberto. E respondo que nem 
um disco arranhado: “Dia de luta”. Venho pra casa pensando 
que o espelhinho é até bom. À gente precisa se ver mais, 
encarar, olhar nos olhos. 

Apurado do dia: cinco sonhos de valsa (poderia ter pego mais, 
mas achei que tava bom). Não sei quando foi que o chocolate 
virou símbolo do dia, um espelhinho, alguns abraços e a 
convicção de que o caminho é longo, mas vale a pena. Pelas 
gerações que lutaram para que eu estivesse aqui escrevendo, 
pelo meu protagonismo, pelas que virão. 

Como diz Clarice, “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não 


tem nome”. 


Mas há de ter. 


Germana Accioly é escritora e jornalista. Publicou “Não é sobre você” (Selo 
Mirada, 2021). Escreve no blog Perder de Vista. 


JULIANA METRA 


a benzedeira 
empunhava numa mão a tesoura na outra 


o ramalhete de ervas 


era a pessoa mais velha mais sábia e mais bonita 


que minha pouca idade permitia adivinhar 


a calêndula a macela a maçanilha 
assim a erva doce 

depois de fervidas e coadas 

uma xícara basta 

para ajudar com a cólica menstrual 


se tomada em goles curtos 


eu falava de flores mas mudei de assunto 


Juliana Meira nasceu em 1981, no interior do Rio Grande do Sul, em 
Carazinho. Hoje vive entre Canela/RS e Brasília/DF. Tem publicados, 
entre outros, “poema pássaro” (Patuá, 2015), “na língua da manhã 
silêncio e sal” (Modelo de Nuvem/Belas Letras, 20177), livro vencedor do 
Prêmio Minuano de Literatura na categoria Poesia no ano de 2018, e 
"água dura” (Artes Samp; Ecos, 2019). Participa das antologias 
“Blasfêmeas: Mulheres de Palavra” (org. Marilia Kubota e Rita Bittencourt, 
Casa Verde, 2016), “Treze Mulheres e Um Verão” (org. Bárbara Lia, Feito 
no Ato/Psappha, 2018) e “As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira” 
(org. Rubens Jardim, Arribaçã Editora, 2021). Integra o livro eletrônico 
“Próxima estação: poesia” (org. Élvio Vargas, Instituto Estadual do Livro 
do Rio Grande do Sul, 2022). Os poemas acima são do livro Estes que têm 
futuro bastante, no prelo pela Editora Bestiário. 


LATINOAMERICANA | AMANDA VITAL 


ando por aí com meu corpo brasileiro e com a certeza de 


que sou muito mais feliz e mais triste que todo o mundo 


ando por aí erguendo corpos do solo: os braços. as mãos 


são só memória muscular herdada e movida por pura bênção 


e quando abro a boca. sei que sou música e silêncio, sou 


melodia e ruído, eu falo em ritmo de marcha e em melisma 
hoje não tenho carne, fibras ou ossos: tenho sedimentos 
intermitentes entre história, continuação e algo a mais 
que ficou cá por dizer, por ser desenterrado, mas nunca 


eu apenas conheço a liberdade em estado de fogo cruzado 


ando por aí com meu corpo brasileiro e com a certeza de 


que meu senso de propriedade é fluido. aquoso, mosaical 


e tudo me atravessa — fino como flecha, grande como nau 


Amanda Vital é assistente editorial da editora Patuá, ombudswoman do 
jornal RelevO e co-editora da revista Mallarmargens. Tem bacharelado em 
Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais e é mestra 
em Edição de Texto pela Universidade Nova de Lisboa, trabalhando com a 
obra poética de Augusto dos Anjos pela editora Ponto de Fuga. de Lisboa. 
Autora do livro Passagem (poemas, Patuá. 2018). Participa de antologias 
de literatura brasileira contemporânea e tem poemas traduzidos para 


inglês, espanhol e catalão. publicados em revistas físicas e impressas. 


UMA BREVÍSSIMA EXPOSIÇÃO SOBRE A MULTIPLICIDADE DA 


POESIA CONTEMPORÂNEA ESCRITA POR MULHERES NO BRASIL 


[Adriane Garcia] 


A menos que se vá fazer uma obra ensaística de fôlego, só é possível falar da poesia 
contemporânea brasileira escrita por mulheres, nos anos mais recentes, como breve 
explanação. Isso porque tal produção é profícua, múltipla em vozes, estilos, temas, 
formas e acontece de norte a sul, de Leste a oeste do país. Aqui, tratarei de uma 
pequena amostra, citando algumas delas e seus poemas, deixando de fora outra 
miríade de poetas e trabalhos, também qualitativos. No trajeto, limitada por 
trabalhar com 21 poetas, procurarei, pelo menos, representar todas as regiões 
brasileiras, sabendo que a desigualdade dos meios de produção e divulgação 
privilegiam algumas regiões, fazendo, por conseguinte, com que conheçamos mais 
facilmente os trabalhos de poetas inseridas no eixo sul-sudeste. 

É preciso falar em destaque da poesia escrita por mulheres, já que a diferença de 
tratamento quanto ao gênero persiste como uma das bases do sistema que gere os 
meios de produção. Isso situa a mulher na luta pela inserção e igualdade em todos 
os espaços — e não seria diferente no campo Literário, que traz os vícios da 
sociedade na qual se insere. Há uma longa história sobre a proibição de as 


mulheres poderem ler e escrever e sobre a Luta por esse direito. Publicar é outro 


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salto. Não é difícil fazermos um reexame de nossa formação de Leitoras/Leitores nos 
anos escolares, principalmente, para constatarmos que tal formação se deu lendo 
privilegiadamente homens brancos, de classe média. As vozes enunciadoras eram 
essas e tais vozes é que (com raras exceções) falavam sobre a existência, o mundo, a 
humanidade. No cânone, poucas escritoras conseguiram a façanha de sair da 
margem, sendo que para a mulher negra, indígena e/ou pobre, há uma dupla ou 
tripla marginalidade. De certa forma, foi também lendo sobre as mulheres vistas 
por homens que nos formamos. 

Hoje, cada vez mais, mulheres escrevem, publicam Livros, analisam-nos, estudam- 
nos nas academias, nos clubes de Leitura, nos canais de vídeo na internet, levam- 
nos para seus espaços de divulgação, muitos deles criados por elas próprias. Com o 
so das redes sociais, a divulgação antes limitada aos veículos tradicionais 
(geralmente gerenciados por homens) passou a se expandir. A proliferação de 
pequenas editoras também impulsionou a publicação de autoras, isso tudo aliado a 
Lima consciência cada vez maior, mas ainda incompleta, sobre a importância de não 
se alijar o ponto de vista e a criação daquela parte que constitui metade da 
humanidade. Nos últimos anos, as mulheres têm conseguido ganhar muitos 
prêmios literários, isso quando se nota também a preocupação (e a exigência 
manifesta das escritoras) de elas comporem, juntamente com os homens, as 
curadorias de festivais, revistas, prêmios. 

A seguir, a pequeníssima amostra dessa produção, no gênero poesia, apenas para 
exemplificar o que cada leitora ou leitor pode encontrar na poesia brasileira 


contemporânea. Para isso, escolhi 21 Livros escritos por mulheres, publicados a 


a partir de 2016, sobre os quais apresento uma sinopse e um poema. 


Mineira, Líria Porto, em Cadela prateada (ed. Penalux, 2016) constrói um Livro 
temático que gravita em torno da Lua. Trabalha versos com sua costumeira fluidez, 
criatividade, síntese, erotismo e ironia. Seus poemas são ricos em nuances, 
inversões, duplos e triplos sentidos, misturando reflexão e humor. Com grande 
capacidade rítmica, causa prazer pela sonoridade, usando as quebras para ampliar o 
sentido (inversão, susto ou surpresa). Ao escolher a Lua como metáfora central, Líria 
Porto fala sobre a mulher, os relacionamentos, a amamentação, o sexo, a política, a 


solidão, a morte e o tempo: 


adiamentos 


a lua esperava o sol 
redonda um talismã 
quando ela se despiu 


ficou de manhã 


o sol Lambia a lua 
o meio o lado as beiras 
lamberia a face oculta 


a nuvem veio 


só amanhã 


Paranaense, Andréia Carvalho Gavita, em Papel LeopHardo (Mariana Edições, 
2016) nos guia por um mundo arcaico que cruza com a pós-modernidade, em um 
encontro de mitologias e descobertas tecnológicas, cultura erudita e popular, 
termos que pertencem ao ocultismo ou à biologia mais atual, tudo isso numa 
espécie de escrita oracular — “decifra-me ou te devoro”. A poeta dialoga com o 
Simbolismo e o Barroco, utilizando uma profusão de significantes, em grande 
riqueza semântica, estabelecendo um dicionário próprio — porque inusual — mas 
que é partilhado de modo arquetípico. Mística, esoterismo, metafísica, 
psicanálise, em aproximação com a natureza e a matéria primordial: 

“ ainda me chamo pangeia. fermento o ectoplasma randômico no fogão a lenha. 
para que o trigo avance pela chaminé e alimente os pássaros com o sonho totêmico 
das árvores genealógicas. até que no corpo nutrido da ave, a onomatopeia de um 


mito, pandêmico e intacto, suplante o grasnido dos aviões. 


Cearense/mineira, Thais Guimarães, em Jogo de facas (ed. Quixote, 2016) realiza 
um projeto de inteligência e muita sensibilidade. Esse livro, orgânico, faz a forma 
encontrar o tema. Os versos são — o próprio título do Livro já revela — da família 
cabralina; sem excessos, o corte se faz com exatidão e faca afiada, ritmo e essência. 
Das metáforas da guerra, dos instrumentos perfurantes, tesoura, navalha, gume, a 
poeta constrói um Livro que usa de violência e delicadeza para falar das dores do 


exastir: 


ode à cebola 


dentro da casca a casca 
guarda outra casca 
no espaço 

entre lascas 

o aço 

entre dedos 

o cheiro 

entre olhos 
antigo laço 

entre lágrimas 
ódio 

picado 

nas mãos 

perícia 

paciência 


tato 


Baiana, Kátia Borges, em O exercício da distração (ed. Penalux, 2017) lança um 
olhar para a poesia das coisas, dos objetos, dos nossos atos cotidianos que 
conseguem nos distrair da obrigação, da rotina dos relógios. Dividido em três 


partes, Como se fosse o órgão vivo”, Fugas extraordinárias ' e “As pequenas 


Vilanias da cidade”, olivro se comunica o tempo todo com seu título. A distração, 
a inadaptação, o mundo como um não-Lugar para os sensíveis, a violência de um 
sistema que desconsidera o lirismo das coisas, máquina do capital a massacrar as 
pessoas, explorá-las, matá-las, cotidianamente, enquanto buscam a sobrevivência e 


O amor: 


Teu movimento 


Antes que te chame 
o pelotão de fuzilamento 
repara o pássaro 


apara o dia. 


Há um olhar que se derrama 
lento sobre a vigia 
e graciosidade no andar 


do carcereiro. 


Antes, sim, que chamem 
o teu mome, anota 
num papel ou na parede 


certo verso de cimento. 


Na argamassa firme 


teu movimento. 


Catarinense, Isadora Kriegger, em Explorações cardiomitológicas (Editora da 
Casa, 2018) faz uma viagem no coração e no inconsciente, as “compensações 
oníricas”. É das próprias saudades, encontros e despedidas dessa pessoa-lírica que 
os poemas vão se constituir, podendo ser lidos como partes de um poema único. O 
livro é uma carta de amor aos seus e à pessoa desconhecida que a lerá 
(Leitora/leitor), mas que foi escrita sem se pensar no destinatário, para melhor 
ouvir o remetente. Para além dos sentimentos, a poeta também está dizendo de 
uma ética do encontro e da coexistência, não só entre seres humanos, mas entre ser 


humano, pedra, pássaro, floresta: 


“tento colocar entre nós o espelho duplo deus/ humano 

tento mostrar que os afrescos nos pertencem mutuamente 

os murais estarem divididos não significa que as crianças, o bosque, a ponte, as 
árvores [floridas sejam realidades apenas tuas. não significa que as serpentes, o 
Lodo, a lua, os [peixes escuros sejam realidades apenas minhas. 

mas para alguém que escreve tantas derivações da palavra tentativa”, e para alguém 
que [ignora todas as formas que tal palavra toma mesmo debaixo de escombros, não 
haveria [outro destino além do fracasso: 


continuamos sentados um de costas para o outro." 


Paraibana, Débora Gil Pantaleão, em Objeto ar (ed. Escalera, 2018) estabelece um 
diálogo com o Livro Lima aprendizagem ou o Livro dos prazeres, de Clarice Lispector. 
Os versos buscam o inefável, o impalpável, na busca existencial pelo sentido e pelo 
não-sentido da vida. Assim como no livro de Clarice, predominam um senso 
panteísta e o paradoxo tudo-nada, que também pode não ser paradoxo, mas a 
integração de algo Lino. Objeto ar nos diz dos relacionamentos, da tentativa de 
vivenciar o amor, em uma poesia feita ora de silêncios e versos curtos, ora de fluxos 


narrativos e associações de pensamentos que dão em uma logopeia inusitada: 


corpo sonho 


4 


Paulista, Ellen Maria, em Gravidade (ed. Patuá, 2018) dá à luz um livro sobre 
gravidez, parto, nascimento, corpo feminino, morte e herança matriarcal. Em versos 
que nada desperdiçam, a poeta consegue emocionar, reconstruindo um universo 
amoroso e dolorido sobre cuidar e ser mulher, mãe de outra mulher, avó de uma 
mulher, neta, filha. Um Livro sobre afetos que coloca no centro de suas questões a 
aprendizagem do feminino e seus questionamentos, a aquisição dos 


conhecimentos de sobrevivência e a aquisição da própria língua, que é materna: 


antes do mar 
vem mãe 
depois do ponto final 


letra maiúscula 


ela que é sábia 
de seu Lugar observa 


a escrita das pedras que acabo de cruzar 


a partir daí, filha 


o Livro é teu 


Pernambucana, Cida Pedrosa, em Solo para vialejo (ed. CEPE, 2019) elabora uma 
narrativa épica e lírica em que a procura das origens se constitui no leitmotiv da 
obra. Por meio de uma espécie de história musical afetiva, Cida Pedrosa reconstrói 
o Lugar e suas gentes — Bodocó, Sertão do Araripe, Pernambuco, Brasil, as Américas 
— mas não buscando aquilo que é oficial, e sim o que foi silenciado diante do 
racismo, do machismo, da exclusão. É a procura do ser negro (representando 
também o ser indígena, o ser pobre e o ser mulher) que guiará o poema, um poema 
solo, que se utiliza de vários recursos formais da poesia, inclusive do poema 


visual, sem se prender a nenhum deles: 


quase todos os filhos de bodocó vieram ao 
mundo pelas mãos de mãe hermínia parteira 

de ofício senhora de muitos saberes e sempre 

a postos para a Luz quando a parturiente residia 
Longe montava de Lado no Lombo de um animal 
ou era transportada por dois homens em uma 
rede sempre acudia às mulheres nessa hora de 
solidão coragem e fé suas mãos além de darem a 
vida tocavam a música das missas domingueiras 
em uma serafina de dois pedais e teclas de 


marfim comprada as sLias próprias expensas 


Amazonense, Wanda Monteiro, em A Liturgia do tempo e outros silêncios (ed. 
Patuá, 2019) reflete sobre o absurdo da impermanência. A ilusão é descortinada. O 
tempo é e não é, “mera percepção mental — flutuante”, porém a percepção é a de 
que se nasce, envelhece e morre. Wanda Monteiro apresenta o tempo como chão 
móvel onde colocamos nossos pés; chão inseguro, vertiginoso, percebido por 
enganosos sentidos. De tempo, avança para espaço. Nada em nós é confiável para 
definições. Lim livro que pensa filosoficamente a condição humana e a busca 
existencial em meio à efemeridade, às limitações da memória, enquanto tenta se 


salvar na linguagem: 


o tempo fala ao teu ouvido 
pa lavra-precipício 
rasga teu pensamento ao meio 


abre fina fenda 


funda — escura 

tira-te o fôlego 

faz tua boca escassa de voz 

podes ouvir os passos das palavras em fuga 


o ranger de seus ossos ferindo o deserto do teu peito 


é tudo tão silêncio em teu chão 


e tu não sabes que (6) poema morreu 


Mineira, Nívea Sabino, em Interiorana (edição própria, 2º edição, 2019) constrói 
uma poesia que escancara a discriminação social, racial, de gênero, mas também 
fala da busca de um sentido existencial. Nívea Sabino é slamer; a poesia falada, 
Wu FZ . . . Wu . . 
aquela que “não vive presa na livraria” certamente trouxe para o livro muitas de 
suas características, fincadas na oralidade. Na preocupação estética com a palavra 
escrita, que se verifica nos seus muitos jogos silábicos/semânticos ou na forma 
visual em que o poema habita a página, a poeta oferece um livro bonito e que 


emociona: 


MELI TRAÇO 


Falar sobre mim 
é de uma imensidão 


sem rastro 


Transito 


me acho 


No infinito 
do que me permito 


do que eu faço 


Não minto 


disfarço 


Caminho 
neste mundo vasto 
de encontros 


de acasos 


Profundo acaso 
ou destino 

do meu passo 
no sem Lugar 


para o qual 


eu me laço 


Mato-grossense, Ryane Leão, em Jamais peço desculpas por me derramar (ed. 
Planeta, 2019) realiza uma poesia de celebração da mulher negra, ressaltando que a 
dor não é a única faceta dessa experiência de estar no mundo, apesar de muito 
presente. Com as marcas da poesia falada, cujo ritmo trazem sua vivência de slamer, 
Ryane Leão convoca outras mulheres a se verem com bons olhos, escreve numa 
escrita solidária, que busca a sabedoria das ancestrais e a transmissão do 
conhecimento que se vai adquirindo no próprio viver para falar com as demais. Um 
Livro sobre a difícil tarefa de viver, mas que exalta a força e a beleza que há nessa 


tarefa. 


celebre a mulher 

que você está se tornando 

não tape os ouvidos 

ela está te chamando 

ela dança com o fogo 

ela é pancada mas também é doce 


ela sempre foi sua melhor escolha 


ela é tudo aquilo 


que sobrevivel 


Gaúcha, Ana Santos, em Fabulário (ed. Confraria do Vento, 2019) se utiliza das 
memórias de infância, construindo um museu de Lembranças, em que as peças 
voláteis denotam tragédia e mágica. Habilmente, procura o elo entre presente e 
passado, tocando em pontos comuns da memória coletiva, valores, sentimentos, 
sensações e estabelecendo, pela identificação, um diálogo com a leitora/o leitor. 
Ana Santos sublinha a importância da memória como aquilo que nos constitui 
primordialmente, salvando-se, com a palavra, do risco do apagamento que a todo 


tempo nos lembra a morte: 


ACALANTO 


Dorme, filhinho. 
Velo o que sonhas 


dentro da noite. 


Do mal da vida, 
mamãe não pode 


mais te salvar. 


Capixaba, Fabíola Mazzini, em Rotina dos ossos (ed. Cousa, 2020) constrói uma 
coletânea de poemas que abriga temas diversos, das tragédias sociais ao 
sentimento individual de solidão, da condição feminina às frustrações por não 
resolver os problemas do mundo. Muito evocado, o amor surge como solução 
ausente, pois o medo é a força paralisante que toma conta dos seres humanos. Em 
versos muito bonitos, não raro com cenário de mar, a poeta leva a leitora/o Leitor a 
refletir sobre a rotina de sermos quem somos, sobre a passagem fugaz do ser na 


Terra, pó que retorna ao pó”, ossos: 


Não é o relógio que te acorda 
Não se dorme mais 8 horas por noite 
Os sonhos são esquecidos a cada manhã 


Todo mundo rouba o tempo do outro 


Ela vigia o olhar do amado a cada crepúsculo 

A vigília é um caracol em seu labirinto 

O tempo gruda no corpo que queria mais da vida 
É nossa anatomia, pedra e abismo 

Somos o homem que morre 

Pensando que fugiu da cela 


Que já Lhe habita o osso 


Amazonense, Márcia Wayna Kambeba, em Saberes da floresta (ed. Jandaíra, 2020), 
(ed. Jandaíra, 2020), (ed. Jandaíra, 2020), compõe seus poemas entre reflexões que 
registram sua história pessoal e parte da história coletiva de seu povo, os 
omágua/kambeba. Em um país que já teve milhares de línguas indígenas e hoje 
registra menos de duas centenas, a sobrevivência deste Legado é uma das maiores 
provas de resistência dos povos originários contra o apagamento e a extinção de 
seus corpos e cultura. A poeta cria poemas nos quais a floresta encontra um espaço 
para falar, em versos que se utilizam de rimas, incluindo palavras do vocabulário 


omágua/kambeba, destacando uma relação de orgulho e pertencimento étnico: 


Voa pajé, renasce payé, 
Rodopia aguçando a visão 
Dança com o maracá da união 


O saber que vem dos espíritos. 


Da cuia o som vai brotar 
Anunciando os guerreiros Tupinambá 
Em seu canto invocavam O povo Maracá 


Dizimados um dia, como espíritos vão falar: 


Sany! Curmyssa aua Maracá, 
Tana may sangara sany indá SUPY sapukatara! 


Hei pajé! Iawaxima aua sUPy curata caiçuma. 


Mineira, Ana Elisa Ribeiro, em Dicionários de imprecisões (ed. Impressões de 
Minas, 2º ed., 2020) constrói poemas como verbetes poéticos, escrevendo um 
dicionário afetivo, onde cabem diversos temas e reflexões: do amor à política, do 
machismo ao exercício da escrita. A poeta/linguista traz para esse dicionário sua 
atenção para a palavra em si, para seus significados, ao mesmo tempo que nos 
apresenta um formato de poema lúdico, brincando de ser outra coisa, falando sério 
com humor: 

Filho 


Substantivo, aqui masculino e sujeito a plural 


1. Diz-se daquele que nasce das entranhas de alguém. 

2. Diz-se daquele que se forma a partir da matriz biológica 
de seus pais e nasce das entranhas da mulher. 

3. Diz-se daquele que pode ser adotado por pessoas 


dispostas ao amor. 


4. Diz-se daquele que provê céus e infernos a outrem. 

5. É extremamente comum que tenha como mãe uma puta. 
6. É também comum que não sejam mesmo putas suas maes. 
7. Os pais escapam a essas acusações. 

8. Os dicionários não podem definir essas relações 


satisfatoriamente. 


Cearense, Jarid Arraes, em Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis (ed. 
Companhia das Letras, 2020) compõe 15 cordéis, cada um dedicado a uma heroína 
negra: escritoras, abolicionistas, fundadoras de quilombos, guerreiras pela 
liberdade, políticas, professoras, mulheres que se rebelaram frente ao machismo, 
ao racismo e à escravidão, servindo de exemplo revolucionário para as demais. Lim 
Livro delicioso de Ler, embalado pelo ritmo arredondado dos cordéis e pela riqueza 
que uniu oralidade e pesquisa contra o silenciamento da história das mulheres. 


Aqui, coloco um excerto do cordel Antonieta de Barros: 


Por seu grande caráter 
Era muito admirada 
Pelos seus jovens alunos 
Ela era celebrada 
Porque era obstinada 


Coerente e respeitada. 


Já na década de trinta 
Se juntou ao movimento 
Por Progresso Feminino 
Exigido no momento 
Era a FBPF 


Com que teve envolvimento. 


Conto ainda mais um fato 
Que ela protagonizou 

E marcou a nossa história 
Como Líder de valor 


Pois abriu mais uma porta 


Antonieta se tornou 

A primeira do estado 
Como assim se registrou 
E foi a primeira negra 


Que o país efetivou. 


Alagoana, Natália Agra, em Noite-de São João (Corsário Satã, 2020) faz acordar 
uma pergunta da infância: para onde é que as pessoas vão depois que morrem? Os 
poemas são criados a partir de lembranças e deslembranças, de alegrias e tragédias 
familiares, daquilo que o fogo queima para atiçar e daquilo que queima para dar 
fim. Neste livro, a poeta trabalha temas universais como a saudade, a finitude, a 
memória, o esquecimento e a identidade construída com aqueles com os quais 


convivemos um dia: 


EVOCAÇÃO 
Para o tio Jonas que, assim como São Francisco, foi um grande protetor dos animais 


(in memoriam) 


alguém 
dizia: “pula a fogueira!” 
no fim da tarde 


fechava-se a ciranda 


ainda respiro 
aquele contorno cigano 


como vapor na chaleira 


espeto o milho na brasa 


deixo que ardam nos olhos 


os últimos anos felizes da família 


mesmo que nunca sobrevivam à fumaça 


sempre que retorno 

encontro as janelas cobertas 

o jardim vazio, as festas submersas 
no esquecimento 

de novo a criança soluça 


o silêncio absoluto da navalha 


Pernambucana, Micheliny Verunschk, em O movimento dos pássaros (ed. Martelo, 
2020) compõe um Livro temático a partir do tema/vocábulo “pássaro”. Com grande 
capacidade lírica, utiliza a palavra temática como mote metalinguístico, além de 
construir, a partir dela, reflexões de uma rica logopeia, que vai do poemna/pássaro 
para o cotidiano, a memória, a condição humana e suas dores, as tragédias sociais 
(no país e no mundo), a morte, o amor. O movimento dos pássaros é profícuo em 
imagens e utiliza versos atravessados por elementos da natureza. O resultado é um 
Livro bonito, escrito por uma poeta com grande domínio de ritmo, com grande 
domínio da Linguagem poética como um todo, capaz não só de se expressar, mas de 


comunicar a sua palavra: 


sobre armadilhas 


meu pé esquerdo lateja 

um coração que bate 
descompassado 

dentro do meu calcanhar 

um coração de ossos 

com um pequeno pássaro 
sangrante e dolorido no seu centro 
um coração deslocado 

ataviado por uma rede de nervos 


que reverbera um nome. 


meu pé esquerdo lateja 


poderia ser um reino ou uma estrela. 


a cidade, pouso para pássaros precários. 


Norte-rio-grandense, Regina Azevedo, em Lança-chamas (ed. Peirópolis, 2021) 
faz uso de versos na maioria das vezes curtos, livres, usando o mínimo de 
pontuação, Regina Azevedo constrói uma poesia Limpa e objetiva, sem qualquer 


intenção de ornamento, fiel à proposta temática dos poemas. É exatamente por isso 


que pode nos surpreender com um verso que parece ter saído, de repente, de uma 
associação livre. É justamente por saber dosar as figuras de linguagem, que Regina 
Azevedo consegue dar “rasteiras” em quem está lendo. Com encadeamentos que 
usam um tom prosaico, por vezes Regina Azevedo interrompe o fluxo com a inserção 
de um assunto que parece estar deslocado, mas que registra o trânsito de vivências 


e informações que nos assombram e atravessam: 


festejo ao fogo 


só por um segundo 


sob teu peito 
o farfalhar do outono 
e o que você fazia 


em festejo ao fogo 


a ponta dos dedos 


ao relento 


traquejo singular da Labareda 


misto de calmaria e lampejo 


numa dança descabelada 


a língua pronta para O surgimento 


da manhã 


o espírito de cavalo colorido 
no ato de trocar os óculos com você 


e te olhar de baixo 


o minério que dorme na pele 
o desafio que doma o segundo 


a ginga que derrete as ondas 


cheiro tônico diante do espelho 


o rugido e o anúncio 


do tropeço no ritual: 


LM orgasmo estupendo 
anestesia contra as bombas 


de efeito moral 


Paulista, Michaela Schmaedel, em Paisagens inclinadas (ed. 7 Letras, 2022) 
realiza uma poesia de concisão, marcada por grandes imagens. De olhar aguçado e 
sensibilidade apurada, a poeta dá conta, em poemas e versos curtos, de comunicar 
ideias de integração do todo utilizando paisagens, seres e suas interações com o 
mundo subjetivo da persona-lírica. Também comparecem com frequência o amor e 
uma certa aceitação do inevitável, um tom melancólico convive com uma sabedoria 
de Luta. Paisagens inclinadas traz poemas de alta carga filosófica. Com uma poesia 
“cênica”, fotográfica”, esse Livro revela um trabalho de sintaxe e temática de pleno 


domínio e voz marcante: 


Solidão 


A semente selvagem 
denominador comum 
das ilusões que vagam 


nas grandes cidades. 


Entre arranha-céus 
uma gaivota gira 
fantasmagórica 


na noite de verão. 


Olhar para cima 
é o que se faz 
enquanto nos arrancam 


fo) coração. 


Mineira, Silvana Guimarães, em O corpo inútil (no prelo) organiza uma 
antologia que reúne grande parte de seus poemas, escritos ao longo das duas 
últimas décadas, sendo a maioria a partir de 2012. O corpo inútil trabalha temas 
como saudade, amor, política, desigualdade social, relações de mãe e filha, morte, 
a condição feminina e a violência contra a mulher. Silvana Guimarães utiliza ora 
um tom confessional, ora um tom narrativo e exterior cheio de humor, ironia e 
profundidade. Seu olhar para cenas cotidianas ilumina aspectos de afetividade, 


tragédia e lirismo; 


Mamuskas 


a trisavó cresceu com a mania de recolher nuncas 
a bisavó passou a vida colecionando nãos 

a avó, entre rezas, reunia quimeras 

a mãe empilhava lamúrias 

ela habituou-se aos muros 

a filha junta janelas 


a neta, pássaros 


Dessa breve demonstração, podemos concluir pela multiplicidade de temas e por 
uma heterogeneidade estilística, com tendência ao verso curto. Com exceção das 
autoras Ryane Leão e Jarid Arrraes, as poetas aqui citadas têm seus trabalhos no 
gênero publicados em tiragens menores, por pequenas e médias editoras. Como 
bem nos explica a pesquisadora Regina Dalcastagnê em seu livro Literatura 
brasileira contemporânea: um território contestado (ed. Horizonte, 2012), a 
ampliação dos espaços de publicação não implica, necessariamente, que todos os 
espaços tenham a mesma valoração, mas são importantes quando “o que está em 
jogo é a possibilidade de dizer sobre si e sobre o mundo, de se fazer visível dentro 
dele”. Essa visibilidade frequenta um sistema de hierarquias que para ser 
modificado requer consciência sobre sua existência e luta contínua para 
democratizá-lo. Assim como, de modo geral, é preciso democratizar o acesso à 
Leitura, por meio de políticas públicas. 

Com os avanços dos movimentos políticos e sociais Ligados às minorias, como o 
Movimento Negro, o Feminismo, os movimentos LGBTQ+, os movimentos por 
moradias ou os movimentos ligados a pessoas com necessidades especiais, alguns 
conceitos têm sido modificados e, com eles, nosso modo de ler. Desconfiamos 
mais, não temos dúvidas de que a Literatura também é um campo de poder; não 
cremos mais tão cegamente naquilo que foi consagrado. Somos outras leitoras, 
outros leitores, mais inclusivas (os), com uma maior abertura para outras vozes que 
falam, traços de vivências particulares e cultura imaterial de grupos que ainda não 
vieram compor nossa percepção. Esse movimento ainda é marginal (e aqui dizemos 


marginal em oposição a central), mas precisa se equalizar, até o momento em que 


não precisemos mais de um adjetivo para colocar após a palavra literatura, pois a 
inserção de várias vozes se tornou “natural”. 

Precisamos lutar por um mundo comum. Hannah Arendt nos diz em A condição 
humana (ed. Forense Universitária, 2001) que “O mundo comum acaba quando é 
visto somente sob um aspecto e só se lhe permite uma perspectiva. A poesia 
escrita por mulheres traz outras vozes enunciadoras, desautomatiza a linguagem e a 
experiência de subalternização a que as mulheres foram relegadas e contra a qual 
sempre lutaram, registra subjetividades dos vários espaços de origem e 
experiências e cumpre um papel social de ruptura, quando instala o ponto de vista 
silenciado, quando enfrenta o papel que lhe foi atribuído — no mundo privado — e 
vai à esfera pública construir páginas desta arte e deste saber coletivo chamado 


Literatura. 


Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para 
adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O 
nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 
2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 
2018), Arraial do Curral del Rei — a desmemáória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019), 
Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras, 2020, Estive no fim do mundo e lembrei de você 


(Editora Peirópolis) e A Bandeja de Salomé (Caos e Letras, 2023) 


REL "POEMAS DO LIVRO A BANDEJA DE SALOMÉ, 
DE ADRIANE GARCIA (CAOS E LETRAS, 2023) á 


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A METÁFORA DE AGAR 


Tudo são metáforas, Agar 


Menos a servidão e o fato de possuir um útero 


Antes ainda, mulher, ser um 


Vaso onde jogar sementes com a graça de deus 


É metáfora. Viver longe das gentes suas, egípcia 


Entre as propriedades desta mulher que não pode rir 


Pois parece estéril havendo um senhor sobre ela 


Mas que tem uma serva 


E você, Agar, a serva oferecida nesta noite 


Em que este homem a possui no breu que se prolonga 


+ 
Enquanto a mulher que não pode rir chora 


E você tenta limpar o que lhe escorre entre as pernas 


Ah, tudo são metáforas, querida Agar 


Até este colo que ofereço para diminuir a sua dor 


PD o * 


Eu que só tenho palavras enquanto sua barriga cresce 


E você foge daquele homem e da mulher que não pode rir 


Uma fuga pelo deserto, mas qual deserto agora, Agar? 


Finalmente você encontra uma fonte de água 


Porém, o deus que tudo vê não dá descanso 


E no seu encalço há um batalhão de anjos treinados 


Em busca, recuperação de servas, restituição de filhos 


E você nem para se sentir lisonjeada 


Tudo metáfora, você volta escoltada-e em silêncio 


E frente a frente: você e a mulher que não pode rir 


Quatorze anos; vocês em vão, olhando para o menino 


Tentando conviver sem se lembrar do breu daquela noite 


Que habitou em Sara, que habitou em você, mesmo depois 


Que recebeu do homem parca pensão alimentícia: 


Pão, um odre de água e um deserto. Tudo são metáforas 


Mas onde é que encaixamos o estupro? 


LA METÁFORA DE AGAR 


Todo es una metáfora, Agar 


Menos la.servidumbre y el hecho de poseer un útero 


Aun antes, mujer, ser una 


Vasija donde arrojar simientes con la gracia de dios 


Es metáfora. Vivir lejos de tu gente, egipcia 


Entre las propiedades de esta mujer que no puede reír 


Pues parece estéril habiendo un sefior sobre ella 


Pero que tiene una sierva 


Eres tú, Agar, la sierva ofrecida esta noche 


En que este hombre la posee en la oscuridad que se prolonga 


Mientras la mujer que no puede reiír llora 


Y tú intentas limpiar lo que te escurre de entre las piernas 


Ah, todo es una metáfora, querida Agar 


Aun este regazo que ofrezco para disminuir tu dolor 


7 = * 


Yo que solo tengo palabras mientras tu vientre crece 


Y huyes de aquel hombre y de la mujer que no puede reiír 


Una huida por el desierto, pero ;qué desierto ahora, Agar? 


Finalmente encuentras una fuente de agua 


Sin embargo, el dios que todo lo ve no da descanso 


Y tras tu rastro hay un batallón de ángeles adiestrados 


En la búsqueda, recuperación de siervas, restitución de hijos 


Y tú ni para sentirte lisonjeada 


Todo metáfora, vuelves escoltada y en silencio 


Y frente a frente: tú y la mujer que no puede reír 


Catorce afios, ustedes en vano, mirando al nifio 


Intentando convivir sin recordar la oscuridad de aquella noche 


Que habitó en Sara, que habitó en ti, aun después 


Que recibió'del hombre parca pensión alimenticia: 


Pan, un odre de agua y un desierto. Todo es una metáfora 


éPero dónde encaja la violación? 


A DESCOBERTA DA MULHER ENCURVADA 


Coloque o peso do mundo sobre os ombros dela 
Prontifique os olhos de todos para o seu julgamento 
Profira, quando ela nasce: é mulher 


Sentencie (com decepção e desprezo) 


“Lembre-se: você aceitou destruir, mostre 
Que ela só deve olhar para baixo 
Separe um lugar para os homens 


E outro, bem atrás, para ela 


Não diga a ela que o mundo é doente 
Diga que ela está possessa de uma enfermidade 
' Eduque-a para ser silenciosa, concha 


Mande-a cobrir com um véu a cabeça 


Foda a primeira vértebra 
Depois a segunda a terceira e a quarta 
Até toda a coluna estar fundida 


À ponto de, corcunda, não olhar mais para o céu 


Mas cuidado, pode ser que ela leia o chão 


E aprenda que não se nasce encurvada, 


7 wu * 


Torna-se 

E que da carcaça, já vi, ela se erga: 
Bruxa 

No seu próprio templo 


De ato e de vontade. 


EL DESCUBRIMIENTO DE LA MUJER ENCORVADA 


Coloca el peso del mundo sobre los hombros de ella 
Ofrece los ojos de todos para su juicio 
Profiere cuando nazca: es mujer 


Sentencia (con decepción y desprecio) 


Recuerda: tú aceptaste destruir, muestra 
“Que ella solo debe mirar hacia abajo 
Separa un lugar para los hombres 


Y otro, bien atrás, para ella 


No le digas que el mundo está enfermo 
Dile que ella está poseída por una enfermedad 
Edúcala para ser silenciosa, valva 


Mándala cubrirse la cabeza con un velo 


À la mierda la primera vértebra 
Después la Segunda la tercera y la cuarta 
Hasta que toda la columna esté fundida 


Al punto de, jorobada, no mirar más hacia el cielo 


Pero cuidado, puede ser que ella lea el suelo 


Y aprenda que no se nace encorvada, 


PD o *“ 


Una se torna 

Y que de la carcasa, ya lo vi, ella se yerga: 
Hechicera 

En tu propio templo 


De acto y de voluntad. 


Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Meio Publicou Fábulas para 
adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O 
nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 
2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 
2018), Arraial do Curral del Rei — a desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019), 
Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras, 2020, Estive no fim do mundo e lembrei de você 


(Editora Peirópolis) e A Bandeja de Salomé (Caos e Letras, 2023) 


7 


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LUTA CRUZ 
MANIFIESTO ANTIRRACISTA + NO QUIERO VIVIR PRA TRABAJAR 


*ABRA O APLICATIVO DA CÂMERA DO 
SEU CELULAR E APONTE PARA O CÓDIGO 


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